Kasa

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Trajetória na arte urbana

A cidade ainda dormia quando o spray começou a falar. Em Teresina, o calor da madrugada não é apenas climático: é também social, urbano, simbólico. No fim dos anos 1990, as ruas largas, os muros baixos e a iluminação irregular compunham uma paisagem em transformação, marcada pela expansão periférica e por uma juventude que buscava formas próprias de inscrição no espaço público. Era nesse intervalo — entre o silêncio da noite e o despertar da cidade — que a escrita urbana começava a ganhar corpo.

A trajetória de KASA (Kaçarola), não se inicia em Teresina, mas em Fortaleza, cidade cuja cena da pixação já se encontrava consolidada desde os anos 1980. Nascido em 1981, KASA cresce em um ambiente no qual a escrita urbana fazia parte do cotidiano doméstico. O irmão mais velho, conhecido como Falcon Black, atuava como pixador, e a observação dessa prática inaugura, ainda na infância, um aprendizado informal baseado no gesto, no risco e na circulação noturna.

“Quando eu nasci, já existia um pichador na minha casa, que era o meu irmão mais velho, conhecido como Falcon Black em Fortaleza. Eu via tudo aquilo dentro de casa com 11 anos de idade. Meu irmão saía de madrugada com os amigos, e eu achava aquilo muito interessante. Eu achava que meu irmão tinha um certo poder, porque as pessoas iam atrás dele, precisavam dele para fazer a arte. Eu achava que ele era meu herói. Aí começou ele pedindo para eu trazer da escola pincéis e giz de cera da aula de artes. Eu furtava os giz de cera e os pincéis para levar para ele pichar na rua. Fui vendo, fui ganhando gosto, e com 14 anos decidi pichar em Fortaleza”, disse.

A pixação surge, portanto, como primeira linguagem, anterior ao graffiti, configurando-se como rito de passagem e forma de pertencimento. A entrada em grupos como GDR – Garotos de Rua e EDT – Espírito das Trevas insere o jovem KASA em uma cena marcada por códigos rígidos, hierarquias simbólicas e uma ética do risco que, como apontam estudos sobre inscrições urbanas, estrutura o reconhecimento entre pares.

1.1 Teresina nos anos 1990: contexto urbano e cultural (CONTEXTO)

A chegada de Kasa a Teresina ocorre em 1996, momento em que a cidade atravessava um processo de crescimento acelerado, impulsionado por políticas de interiorização administrativa e expansão do setor de serviços. Apesar disso, o campo cultural permanecia fortemente concentrado em iniciativas institucionais, com pouca abertura para expressões juvenis periféricas. A escrita urbana ainda era incipiente e restrita a poucos sujeitos, majoritariamente vinculados à pixação.

Esse deslocamento territorial — de Fortaleza para Teresina — é vivido pelo artista como ruptura afetiva e simbólica. A ausência do mar, da família e das referências culturais conhecidas transforma a cidade em espaço de conflito e enfrentamento. A pixação passa a operar, então, como forma de resposta ao novo território.

“Quando eu cheguei em Teresina, eu não conhecia ninguém. Eu surfava todo dia em Fortaleza, e aqui não tinha mar, não tinha família, não tinha nada que eu gostasse. Eu fiquei muito revoltado. Meu objetivo era pichar toda a cidade. Eu decidi, quando cheguei aqui, ser o melhor pichador da cidade. Eu decidi fazer isso na minha vida”, afirmou.

Esse relato revela a dimensão territorial da pixação: mais do que um gesto isolado, trata-se de uma prática de ocupação simbólica da cidade, na qual o nome inscrito no muro funciona como marca de presença e afirmação existencial.

1.2 Primeiras experiências em Teresina: pixação, risco e reconhecimento

Ao chegar à capital piauiense, KASA encontra uma cena ainda reduzida. “Dava para contar nos dedos” os praticantes, como ele próprio observa. Nesse contexto, a figura de Bola 8 emerge como referência central, exemplificando a importância das lideranças simbólicas na formação das cenas locais de pixação. O prestígio não se constrói apenas pela quantidade de inscrições, mas pelo grau de ousadia, visibilidade e disposição ao risco físico.

A pixação em Teresina, nesse período, não se apresentava como campo institucionalizado, mas como rede informal de saberes, marcada pelo silêncio estratégico, pela circulação restrita de informações e por uma ética própria de reconhecimento. Episódios de violência, confrontos e acidentes fazem parte dessa experiência, ainda que o depoimento de KASA os trate mais como pano de fundo do que como espetáculo.

O que se consolida, ao longo desses anos iniciais, é uma relação profunda com a cidade, mediada pelo corpo, pela noite e pelo risco calculado. A pixação não aparece como fase descartável, mas como fundamento formativo, cuja experiência permanece operando mesmo quando o artista, anos depois, passa a dialogar também com o graffiti.

Essa trajetória inicial — da infância em Fortaleza à afirmação em Teresina — insere Kasa em uma geração pioneira da escrita urbana local. Sua história individual se confunde com a própria formação da cena, revelando como a cidade foi sendo escrita, pouco a pouco, por sujeitos que encontraram no muro não apenas um suporte, mas um modo de existir.

2 NICHOS DA EXPERIÊNCIA EM TERESINA

2.1 Onde a escrita começa: centro, eixos e muros disponíveis

Quando KASA chega a Teresina, em 1996, a cidade apresentava uma configuração urbana distinta da atual. O centro concentrava fluxos administrativos e comerciais; grandes avenidas — como a Miguel Rosa — funcionavam como eixos estruturantes de circulação; e a verticalização ainda era limitada. Nesse cenário, a escrita urbana encontrava muros baixos, fachadas extensas e prédios públicos pouco monitorados, o que favorecia inscrições rápidas e de alta visibilidade.

A escolha dos lugares não se dava por acaso. A pixação operava como leitura prática da cidade: identificar sombras, horários, rotinas de vigias, pontos de fuga. Como indicam estudos de geografia urbana e de inscrições visuais, o espaço não é apenas suporte, mas condição de possibilidade da escrita. Em Teresina, os primeiros percursos de KASA privilegiam áreas centrais e equipamentos públicos — escolas, órgãos administrativos, hospitais — justamente por concentrarem circulação simbólica e reconhecimento.

“Quando eu cheguei em Teresina, as artes ainda não estavam sendo escaladas. As artes só eram em muros. E pouquíssimas artes. A gente dava para contar nos dedos as pessoas que faziam algum tipo de arte ou pichação. Eu via isso no centro, nos muros, em alguns prédios públicos. Era tudo muito diferente do que eu tinha visto em Fortaleza, mas foi aí que eu comecei a entender a cidade. Eu comecei a ler a cidade, entender por onde dava, onde não dava, quem passava, quem olhava, onde tinha vigia. A cidade foi me ensinando”, explicou.

Esse aprendizado empírico configura aquilo que a literatura reconhece como cartografia informal da cidade, produzida por sujeitos que experimentam o espaço a partir do risco e da circulação noturna.

2.2 A Avenida Miguel Rosa como palco simbólico (CONTEXTO)

A Avenida Miguel Rosa, um dos principais corredores urbanos de Teresina, assume papel central na trajetória de KASA. Ligando zonas distintas da cidade, o eixo concentra equipamentos públicos, hospitais, comércio e intenso fluxo diário. Dados urbanos indicam que, nos anos 1990 e 2000, a avenida consolidou-se como espaço estratégico de visibilidade e disputa simbólica (CONTEXTO).

É nesse contexto que se insere a pixação no prédio do Sistema Único de Saúde, ação planejada e executada em parceria com Bené, do grupo Macacos da Madrugada. O local sintetiza a lógica dos nichos da experiência: altura, centralidade, mensagem e repercussão pública.

“Quando eu comecei foi por pura rebeldia, mas quando eu comecei a entender a pixação como uma fonte de conhecimento público, eu resolvi fazer uma pichação que ia ficar na história aqui em Teresina. Foi a do SUS, que fica na Miguel Rosa. Eu e o Bené passamos uma madrugada na casa dele conversando sobre essa arte. A gente comprou tinta especial, rolinho, extensor. Fomos para a Miguel Rosa, ficamos esperando o vigia dormir. Quando ele dormiu, nós subimos por fora, num prédio de cinco andares, numa escalada. E fizemos uma arte que era contra o sistema. Colocamos ‘mais saúde, menos corrupção’. Essa pixação saiu na capa do jornal O Dia. Tá lá até hoje”, disse.

A ação evidencia a passagem da pixação nominal para a inscrição discursiva, ampliando o alcance simbólico da escrita urbana e tensionando sua relação com a esfera pública.

2.3 Altura, risco e seleção dos lugares

Com o avanço da verticalização urbana, sobretudo a partir dos anos 2000, a escrita urbana em Teresina passa a incorporar a escala vertical como critério de prestígio e visibilidade. Para KASA, a escolha dos lugares envolve cálculo rigoroso: não apenas onde escrever, mas quando e como permanecer invisível até a execução do gesto.

“Às vezes eu estou em cima de um telhado, o vigia me procurando, e eu tenho que esperar ele ir embora seis horas da manhã para sair e ir para casa. Porque se eu descer, eu sei o que vai acontecer. Esse mundo é muito oculto. Quem não é desse rumo não aguenta. O próprio universo expulsa a pessoa. Eu aprendi a escolher o lugar certo, o momento certo. Isso é o que faz a pessoa continuar”, relatou.

Esse depoimento revela que os nichos da experiência não são apenas espaciais, mas também temporais e corporais. A escrita urbana se constrói na interseção entre espaço, corpo e tempo, produzindo uma cidade paralela, vivida por poucos e percebida por muitos.

2.4 Permanência, apagamento e memória urbana

Os lugares escolhidos por KASA também revelam uma preocupação com a durabilidade simbólica das inscrições. Ainda que o apagamento seja frequente, certos pontos permanecem como marcos de memória pessoal e coletiva. Fotografar as próprias inscrições, revisitar os locais, acompanhar o desgaste da tinta: práticas que transformam o muro em arquivo.

Nesse sentido, os nichos da experiência de KASA não se limitam a bairros específicos, mas constituem uma cartografia afetiva de Teresina, onde cada ponto inscrito carrega não apenas um nome ou uma frase, mas uma experiência vivida da cidade.

6. MOVIMENTO, GRUPOS, PARCERIAS E FESTIVAIS

6.1 Grupos de formação e capital simbólico

Na trajetória de KASA, a passagem por grupos (grifes) não se configura como adesão permanente, mas como etapa formativa em um campo marcado por códigos de honra, risco e reconhecimento. Nos anos iniciais em Teresina, integrar uma grife significava compartilhar estratégias, circular por territórios específicos e, sobretudo, acumular capital simbólico por meio da associação a nomes já legitimados na cena. A experiência com o grupo de pixadores Rebeldes Suicidas ilustra esse momento: o próprio nome do grupo condensava valores de enfrentamento, perigo e disposição ao limite.

“Na época, nós éramos chamados de Rebeldes Suicidas. Era uma galera muito pesada. Olha o nome: Rebeldes Suicidas. Hoje eu até saí dessa galera, porque era um nome muito forte. Mas naquela época eu queria ser o melhor, então eu tinha que estar com os melhores. Aquilo ali fazia sentido naquele momento da minha vida”, disse.

A fala evidencia que a pertença a uma crew responde a temporalidades biográficas. O que em determinado momento representa força e afirmação pode, em outro, tornar-se excessivo, incompatível com novas éticas pessoais e modos de existir na cidade.

6.2 Parcerias pontuais e afinidades eletivas

Se as crews marcaram o início, as parcerias pontuais definem a maturidade da prática de KASA. A ação realizada com Bené, do grupo Macacos da Madrugada, na pixação do prédio do SUS, exemplifica um modelo de colaboração baseado em afinidade estética, confiança mútua e planejamento rigoroso. Não se trata de coletivo permanente, mas de aliança circunstancial, ativada quando há convergência de propósito.

“Eu e o Bené passamos uma madrugada inteira conversando sobre essa arte. Não foi no impulso. A gente planejou, comprou material certo, escolheu o lugar. Era alguém que eu confiava, que entendia o que a gente queria dizer. Não era qualquer parceria”, explicou.

Essas parcerias seletivas revelam uma lógica distinta daquela observada em festivais ou mutirões de graffiti. Aqui, o vínculo se constrói menos pela visibilidade coletiva e mais pela corresponsabilidade no risco e na mensagem.

6.3 A escolha pela prática solitária

Um dos aspectos mais marcantes da trajetória de KASA é a opção consciente pela prática solitária. Diferentemente de muitos grafiteiros que atuam em grupos, ele reivindica a experiência individual como forma de intensificar a relação entre corpo, cidade e escrita. A solidão não aparece como isolamento, mas como método.

“Eu nunca fui de andar com galera. O meu estilo sempre foi oculto, sozinho. Eu não precisava de ninguém olhando se vinha vigia ou polícia. Eu ia sozinho. A minha onda era sentir a pixação pura. Acho que é por isso que existe um respeito pela minha pessoa na cidade”, afirmou.

Essa escolha tensiona modelos mais visíveis e institucionalizados da arte urbana, reafirmando uma ética na qual a autoria está diretamente ligada à exposição individual ao risco. No interior da cena, essa postura é frequentemente associada a coragem, domínio técnico e coerência.

6.4 Festivais, encontros e a cena contemporânea

KASA não constrói sua trajetória a partir de festivais ou circuitos oficiais de graffiti. Sua relação com esses espaços é lateral, observacional. Ainda assim, ele reconhece a importância dos encontros e da circulação coletiva para a renovação da cena, especialmente entre gerações mais jovens. Ao mencionar nomes que hoje “fazem a cena” em Teresina, como Xato, o artista aponta para a continuidade do movimento, ainda que sob outras formas.

Essa distância crítica dos festivais não implica negação de sua relevância, mas ressalta que nem toda produção urbana se organiza a partir do evento. Há práticas que permanecem à margem, operando segundo lógicas próprias, menos visíveis, porém estruturantes.

6.5 Movimento como continuidade e não como instituição

Para KASA, o movimento da arte urbana em Teresina não se define por associações formais, editais ou calendários culturais, mas pela persistência dos gestos. O movimento existe enquanto houver alguém disposto a escrever, subir, esperar, arriscar. Crews se formam e se dissolvem; parcerias surgem e se encerram; a cidade muda. O que permanece é a escrita como prática viva.

Essa compreensão desloca o debate da institucionalização para a experiência concreta dos sujeitos que constroem, cotidianamente, a história da arte urbana local — muitas vezes fora dos registros oficiais, mas profundamente inscritos na paisagem.