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O Ruaz Crew é um coletivo de graffiti de base territorial, sediado na zona Norte de Teresina, com atuação contínua desde meados da década de 2010. Entendendo os muros como dispositivos pedagógicos e políticos, o Ruaz Crew tem como principal característica a articulação entre produção artística, organização comunitária e ocupação simbólica do espaço urbano periférico. Conforme explicita o portfólio institucional, o Ruaz foi criado para “desenvolver trabalhos nas comunidades de Teresina, com o objetivo de valorizar a autoestima dos jovens por meio do graffiti”.
O coletivo foi fundado em 2013 por Laércio Sinza, sendo formado por artistas oriundos majoritariamente de bairros populares, especialmente da região da Grande Santa Maria da Codipi. O território escolhido pelo Ruaz para realizar suas atividades, localiza-se na zona Norte de Teresina, figurando entre os mais populosos da capital, com mais de 21 mil habitantes, segundo o Censo IBGE 2022. Afastado do centro, o Santa Maria concentra dinâmicas típicas das periferias urbanas brasileiras: alta densidade demográfica, juventude numerosa, precariedade histórica de políticas públicas, violência alarmante e forte estigmatização midiática. Uma reportagem da Revestrés explicita essa realidade, ao afirmar que “o bairro sempre se destacou de forma negativa, seja por problemas com a falta de saneamento ou pela violência. Muitas vezes quem mora lá não se enxerga nessa realidade que é mostrada na mídia” (CAVALCANTE, 2017, p. 2). Com o coletivo, o Santa Maria da Codipi tem sido um lugar de pertencimento, um campo ativo de criação e de prática estética. Como coletivo em processo de intervenção permanente, o Ruaz tem evidenciado que a periferia não é apenas lugar de recepção da cultura, mas espaço de produção, circulação e legitimação artística.
Ao nascer e se desenvolver dentro de um território marginalizado, o Ruaz Crew opera segundo uma lógica de auto-organização periférica, na qual o graffiti assume, também, a função de mediação social, sobretudo junto às juventudes em situação de vulnerabilidade. Nesse cenário, o bairro adquire centralidade não apenas logística, mas política: os eventos do Ruaz Crew afirmam, na prática, que o direito à cidade começa onde historicamente ele foi negado. No Ruaz, o graffiti funciona, portanto, em três dimensões: i) como reescrita simbólica do território, uma forma de disputar narrativas sobre violência, abandono e marginalidade; ii) como dispositivo social para empoderar uma população vulnerável, dando-lhes voz e sentido; iii) colocar arte sobre os muros marcados pela precariedade, como signos de pertencimento, identidade e futuro.

Coletivo Ruaz Crew e membros da comunidade do Santa Maria da Codipi. Acervo de Maria Simone (Ruaz Crew).
Em 2018, o coletivo foi indicado ao Prêmio Piauí de Inclusão Social, promovido pelo Grupo Meio Norte, uma iniciativa de alcance estadual que, desde 2005, dá relevância pública a projetos e ações voltados à promoção da cidadania, da inclusão social e da geração de oportunidades em contextos marcados pela vulnerabilidade. Ainda que não tenha sido contemplado com a premiação, a indicação conferiu ao Ruaz Crew visibilidade institucional e legitimidade simbólica, evidenciando que suas intervenções nas periferias de Teresina extrapolam o campo artístico e se inscrevem no debate mais amplo sobre equidade, inovação social e impacto comunitário.
Em 2021, o Ruaz Crew realizou uma das intervenções mais emblemáticas de sua trajetória: a execução de quatro painéis de graffiti em grande escala nas estruturas da ponte estaiada, na avenida Marechal Castelo Branco. A intervenção em um dos eixos viários mais visíveis da cidade foi viabilizada institucionalmente pela Superintendência das Ações Administrativas Descentralizadas da região Norte (SAAD/Norte). O coletivo, então liderado por Laércio Sinza, resolveu homenagear figuras populares e tradicionais de Teresina, como pescadores e lavadeiras dos rios Poty e Parnaíba, personagens que compõem o imaginário ribeirinho e o cotidiano invisibilizado da cidade. A presença dessas imagens sob a estrutura da ponte não apenas ampliou a escala estética do coletivo, mas consolidou uma forma de ocupação visual que articula território, política pública e memória urbana.
Ao longo dos anos, o Ruaz Crew também assumiu funções de curadoria, produção e mediação comunitária, sem abandonar os princípios que orientavam sua atuação: autonomia, centralidade periférica, intercâmbio entre artistas, recusa da hierarquização institucional e afirmação do graffiti como linguagem legítima da cidade. Entre os vários eventos realizados pelo coletivo destaca-se o Festival de Graffiti que leva seu nome. Ver mais sobre o Festival Ruaz Crew

LAÉRCIO SINZA: grafiteiro, educador social e articulador cultural periférico
Laércio Andrade Serafim, conhecido como Laércio Sinza, foi grafiteiro, educador social e um dos principais articuladores da cultura Hip Hop e do graffiti na zona Norte de Teresina. Nascido em 28 de janeiro de 1988, em Teresina (PI), Sinza teve seu primeiro contato com o graffiti ainda na adolescência, aos 14 anos, quando começou a se aproximar das linguagens urbanas como forma de expressão, pertencimento e leitura crítica do território em que vivia.
Em 2005, na Escola Itamar Brito, participou de sua primeira oficina de graffiti, ministrada pelo professor e grafiteiro Du Alemão, experiência que marcou definitivamente sua trajetória.
À época, Laércio residia no bairro Anita Ferraz, e foi a partir desse contato inicial que passou a se envolver de maneira mais sistemática com a cultura Hip Hop, compreendida por ele como espaço educativo, político e comunitário. Posteriormente, Sinza frequentou a Casa do Hip Hop, onde ampliou sua formação cultural e fundou o grupo Raciocínio, voltado à música rap, com o qual gravou cinco discos que tematizavam o cotidiano da periferia, as desigualdades sociais e a vida juvenil nos bairros populares de Teresina.
Conforme descreve na revista RUAZ nº 1 (2018), Laércio Sinza se entendia como um artista socialmente engajado e articulador cultural, que usava a arte como método de ensino e intervenção artística em favor da cidade. “Hoje, o graffiti é a melhor forma de chegar a uma aproximação com o jovem de periferia”. Para ele, essa arte poderia ser usada tanto como válvula de escape como em uma perspectiva profissional.
Em 2013, Sinza fundou o coletivo Ruaz Crew, adotando, como sede simbólica e prática, a região da Santa Maria da Codipi. Para ele, o coletivo tinha como objetivo principal, desenvolver atividades artísticas com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, utilizando o graffiti como ferramenta de educação, cuidado, saúde e fortalecimento da autoestima.
Em 2014, ele participou, como grafiteiro, de seu primeiro grande evento: o Encontro Teresinense de Graffiti, evento que abriu as portas para inúmeras possibilidades de auto-organização do movimento de graffiti na cena local. Determinado a contribuir com o movimento, nos anos seguintes, organizou as três primeiras edições do Festival Ruaz Crew, hoje, o maior e mais importante evento nessa categoria do Piauí e um dos mais relevantes do Norte e Nordeste brasileiro. Além do Festival Ruaz Crew, Laércio Sinza organizou mutirões, oficinas e intervenções urbanas em diversos bairros de Teresina e em outras cidades do Piauí e Maranhão, projetando o nome do coletivo no circuito nacional do graffiti.
A Associação Positividade, criada por Laércio Sinza nesse contexto, funcionava como uma extensão organizativa e ética de sua atuação no graffiti, voltada à formalização de ações sociais já desenvolvidas de maneira orgânica nos territórios periféricos de Teresina. A Positividade era uma plataforma comunitária de intervenção social, articulando arte urbana, educação informal e cuidado com a juventude em situação de vulnerabilidade. A organização nasceu da convicção de Sinza de que a rua poderia ser espaço de aprendizado, saúde e proteção, e de que a arte, quando enraizada no território, atuaria como estratégia concreta de resistência cotidiana e construção do direito à cidade.
Sua trajetória foi interrompida no dia 8 de agosto de 2022. Assassinado a tiros no bairro Água Mineral, na zona Norte de Teresina, Sinza deixou, como testamento uma vida dedicada às causas sociais. Sua morte violenta não pode ser lida como fato isolado, mas como expressão das condições estruturais de vulnerabilidade e violência que atravessam a juventude periférica brasileira, inclusive aqueles que produzem cultura, arte e alternativas de vida fora da lógica da marginalização.
O legado de Laércio Sinza permanece vivo no Ruaz Crew, nos festivais que ajudou a fundar, nos muros que transformou em linguagem e, sobretudo, na compreensão do graffiti como prática coletiva de cuidado, resistência e direito à cidade. Sua trajetória inscreve-se como memória ativa da cultura urbana teresinense e como referência incontornável para a história do graffiti no Piauí.
[1] Laércio Andrade Serafim, conhecido como Laércio Sinza, foi um articulador cultural periférico, figura-chave na criação do Ruaz Crew e na consolidação do graffiti como prática coletiva na zona Norte de Teresina.