Festival Ruaz Crew

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O Festival Ruaz Crew é uma iniciativa do coletivo de mesmo nome, se constituindo uma plataforma ampliada de mobilização comunitária, intercâmbio nacional e afirmação da periferia O Festival Ruaz Crew é uma iniciativa do coletivo de mesmo nome, constituído como espaço de mobilização comunitária, intercâmbio nacional e afirmação da periferia como território produtor de cultura. A partir desse evento, o Ruaz Crew expandiu sua atuação para além do bairro de origem, inscrevendo Teresina no circuito do graffiti brasileiro — processo analisado a seguir em cada uma de suas edições.

A primeira edição, denominada Encontro de Graffiti Ruaz Crew e realizada em 1º de maio de 2016 no Santa Maria da Codipi, sob o título “Ocupação na Positividade”, reuniu 93 grafiteiros oriundos do Piauí, Maranhão, Ceará e Amazonas, que grafitaram mais de um quilômetro de muros e fachadas. A escolha do território não era circunstancial: o Santa Maria da Codipi é um bairro historicamente associado à precariedade urbana e à ausência do Estado, e o evento operou como dispositivo de requalificação simbólica desse espaço. O muro, nesse contexto, não era apenas suporte estético — era também enunciação territorial.

A revista Ruaz nº 1 (2018) é um documento central para compreender esse momento. A publicação revela três elementos estruturantes do projeto. O primeiro é a centralidade da periferia como espaço produtor de cultura: há páginas dedicadas ao Santa Maria da Codipi, às zonas Norte e Sudeste, aos muros afastados dos circuitos centrais — indicando um graffiti territorializado, ligado ao cotidiano de bairros populares. O segundo é a consciência de pertencimento a uma rede ampliada, regional e nacional: o Ruaz Crew se reconhecia como parte de um movimento maior, ainda que situado em condições materiais desiguais. O terceiro é a ênfase na auto-organização: a revista, independente, com registros fotográficos autorais e entrevistas feitas pelos próprios grafiteiros, revela que o coletivo buscava se estruturar sem depender de validação acadêmica, institucional ou mercadológica. Como escreveu Laércio Sinza em texto publicado na revista: “O festival vem com a intenção de fortalecer a cena local e nacional do graffiti”, trazendo obras para “dentro das comunidades menos favorecidas de arte urbana de qualidade”, despertando ou inspirando “os interesses de uma juventude esquecida por parte do poder público” a buscar “profissionalização através do graffiti” (Revista RUAZ, 2018, p. 8).

[Figura — Participantes do 1º Encontro de Graffiti Ruaz Crew em 2016]

O 2º Festival Internacional de Graffiti Ruaz (2017), realizado no bairro Monte Verde, zona Norte de Teresina, representou um passo de amadurecimento político e organizativo. Monte Verde era um território em processo de urbanização, ainda pouco inserido nos circuitos culturais da cidade. A escolha do espaço evidenciava uma estratégia deliberada de afirmação do direito à cidade. A edição reuniu cerca de 200 artistas de sete estados — Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro —, tornando-se espaço de intercâmbio estético entre diferentes cenas do graffiti nacional. A programação também se diversificou, incorporando rodas de conversa, debates e apresentações musicais, reforçando o caráter do festival como prática cultural indissociável do hip hop e da organização comunitária.

Naquele período, o Ruaz Crew era composto por quatro integrantes, conforme registro na revista Ruaz (2018): Laércio Sinza, idealizador do coletivo, com atuação no graffiti desde 2007, voltado principalmente ao wild style e às personas; Wanderson Alves (CBS), que começou na pichação em 2015 e migrou para o graffiti sob influência de artistas locais; Iago Vieira (Sólido/Soli), que iniciou no graffiti em 2012, com trajetória anterior em desenho e pintura; e Iori Ramos, de Recife, que começou aos dez anos e atuou em diversos estados brasileiros.

[Figura — 2º Festival Internacional de Graffiti Ruaz Crew — Monte Verde (2017)]

A 3ª edição (2018), com o tema “Teresina Cores”, foi realizada na região da Grande Santa Maria da Codipi, contemplada com subsídios da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves. O festival expandiu os espaços de intervenção para os bairros Parque Wall Ferraz, Francisca Trindade e Parque Stael. Participaram 200 grafiteiros de diversas regiões do país, em uma programação que integrou oficinas, workshops, rodas de conversa, feira de arte urbana, batalhas de tag e mutirões de pintura. A escolha de escolas públicas, centros de convivência e equipamentos culturais como suportes da intervenção evidenciava a compreensão do graffiti como prática pedagógica e política, capaz de produzir pertencimento e requalificar simbolicamente o espaço urbano.

[Figura — 3º Festival Internacional de Graffiti Ruaz Crew — 2018]

A 4ª edição (2019) ocorreu na região do bairro Matadouro, nas proximidades do Teatro do Boi. Participaram cerca de 80 artistas, incluindo grafiteiros locais e de sete outros estados brasileiros. A edição assume relevância adicional por ser a última organizada diretamente por Laércio Sinza.

[Figura — 4º Festival Internacional de Graffiti Ruaz Crew — 2019]

Nos anos de 2020 e 2021, o festival teve suas atividades interrompidas pelas restrições sanitárias da pandemia de Covid-19. A tentativa de retomada ocorreu em fevereiro de 2022, quando Sinza organizou uma prévia da 5ª edição restrita a artistas convidados. Em 8 de agosto de 2022, Sinza foi assassinado. A perda do principal articulador do festival não apenas instaurou um período de luto e suspensão das atividades, como evidenciou as condições de vulnerabilidade que atravessam os agentes da cultura urbana periférica — os limites e riscos impostos àqueles que atuam na produção cultural de bairros populares.

[Figura — Laércio Sinza conduz eventos na prévia da 5ª edição]

A 5ª edição (2023), com o tema “Cidade Cinza, Teresina de Cores”, foi marcada pelo luto e pelas homenagens a Sinza. Ao assumir a gestão do projeto, Maria Simone (Ms. Graffiti), educadora e produtora cultural com trajetória consolidada na cena urbana, reafirmou o compromisso de continuidade:

Meu envolvimento com o Ruaz Crew se deu efetivamente em 2022, a partir do contato direto com Laércio Sinza, momento em que passei a compreender, em profundidade, a natureza do coletivo e o sentido de sua atuação. Até então, minha participação havia se restringido a edições anteriores do festival como grafiteira e artista convidada, sem um conhecimento mais amplo sobre os processos internos, as formas de organização e o grau de dedicação que sustentavam o Ruaz Crew como projeto coletivo. (Maria Simone, depoimento a Kelma Gallas, 2025)

Um dos primeiros gestos de Maria Simone na liderança do festival foi estabelecer parceria com o Instituto Avante de Juventude, associação privada sem fins lucrativos que atua na defesa dos direitos sociais da juventude e na promoção da educação como ferramenta de transformação social. A parceria foi determinante para garantir a sustentabilidade do evento.

A edição de 2023 registrou a participação de cerca de 180 artistas de 19 estados brasileiros e uma participação internacional — Yesca, da Argentina. Entre os artistas piauienses com presença relevante nessa edição: WG, Du Alemão, Hudson Melo, Maku, Retok e Camelo. Do Ceará, participaram Hirlan, Jucá, Siba e Ioda. Pernambuco foi a terceira maior presença estadual, seguido de São Paulo, com artistas como Wall, Vado e Alex Vinte. Estados como Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Paraíba, Distrito Federal e Rio de Janeiro também tiveram representação significativa. Esse recorte evidencia o alcance nacional do Ruaz Crew e sua consolidação como plataforma de circulação do graffiti brasileiro. Sobre essa edição, Maria Simone relata:

Eu e o coletivo nos esforçamos e fizemos praticamente com zero recurso, mas conseguimos organizar. Nessa época, trouxemos uns 65 artistas de fora, e acho que tinham uns 100 artistas de Teresina. Conseguimos fazer um festival organizado, acolhedor e mostrar pra comunidade — que foi na Santa Maria da Codipi — que o festival continuaria, que a história do Sinza não morreria, que o que ele deixou a gente continuaria a fazer. (Maria Simone, depoimento a Kelma Gallas, 2025)

A edição de 2023 também se destaca pelo aumento da participação feminina. Os homens representavam cerca de 85% do total de participantes, dado que reafirma o caráter historicamente masculinizado do graffiti. A presença de 15% de mulheres grafiteiras, embora ainda distante de reverter as assimetrias estruturais de gênero, representou uma inflexão concreta na composição do evento. Entre as artistas piauienses, destacaram-se Rika, Ivih, Línea e Lu Rebordosa. De outros estados, participaram Thaynha (PB), Yasmina (PE), Mila BMA (PE), Ursa (AL), Nágô (MA), HagaH (MA), Carla de Sacola (MG), Brassa (MG), Thaizis (AM), Iran (ES), Dandara (DF), Yandra (DF), Sink (PR), Zack (SC) e B4yl (SP).

[Figura — Mulheres presentes ao 6º Festival Internacional de Graffiti Ruaz Crew — 2024]

A 6ª edição (2024) reafirmou a ancoragem territorial do festival e aprofundou sua preocupação com curadoria, divulgação e registro. A edição ocorreu novamente na região do Parque Brasil, Santa Maria da Codipi:

Em 2024 foi a edição na Santa Maria da Codipi, na região do Parque Brasil. Foi outro desafio. Fizemos o festival com pouco recurso, mas a comunidade abraçou, tivemos apoio de amigos, algumas secretarias, o coletivo se esforçou como sempre, e conseguimos fazer. Já foi mais artista, a gente passou de 100 artistas de fora. Nossa principal preocupação dentro de um festival desse é não faltar lugar pra galera se hospedar e alimentação, porque material a gente vai dando um jeito, mas alimentação e hospedagem são prioridades. (Maria Simone, depoimento a Kelma Gallas, 2025)

A programação integrou graffiti, rap, discotecagem, rodas de conversa e encontros formativos. Entre os artistas musicais presentes: Rafa Marx & RC, Conexão ZL, DJ Laís, Alma Roots, Família Fúria, DJ Zero e DJ Pik. O festival promoveu ainda o “Bate-papo Ruaz”, com Maria Simone, Fábio Salmos (SP) e GardPam (PR), atravessando temas como trajetórias, processos criativos e desafios da cena urbana.

O ponto central da edição foi a empena em grande escala executada pelo grafiteiro Gardpam (Fernando Ferlin). Artista com intervenções realizadas em todas as capitais brasileiras e em mais de 28 países, Gardpam produziu o painel “Mãe dos Brasileiros” — com aproximadamente 55 metros de altura — na lateral do Edifício Comercial Otá Miranda, no cruzamento das ruas Rui Barbosa e Paissandu, no centro de Teresina. A obra foi executada ao longo de oito dias por meio da técnica de rapel com cadeirinha e marcou o encerramento do projeto do artista de pintar em todas as capitais do país, sendo Teresina a última delas.

[Figura — Processo de produção do painel “Mãe dos Brasileiros”, de Gardpam]

A 7ª edição (2025), realizada entre 29 e 31 de agosto no Dirceu I, zona sudeste de Teresina, foi a primeira a integrar formalmente o circuito de fomento cultural do estado, contemplada pelo Sistema Estadual de Incentivo à Cultura (SIEC) com apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Piauí e da Prefeitura de Teresina. A mudança de território trouxe desafios específicos, registrados por Maria Simone:

Na Santa Maria a gente não teve dificuldade porque o Sinza já conhecia toda a comunidade, porque ele era de lá. Então quando a gente chegava dizendo que era do coletivo Ruaz Crew e que ia assumir o festival, todo mundo aceitava. As pessoas já conheciam o que era o graffiti. Em 2025 foi no Dirceu, e aí ficou mais difícil. Você chega na comunidade e tem que apresentar todo o trabalho. Quando você pede um muro, às vezes a pessoa fica insegura, diz que não sabe se quer, que a mãe não quer, pergunta o que vai ser pintado. Depois que os artistas começam a grafitar os espaços públicos autorizados, a própria comunidade começa a procurar os artistas e pedir pintura nos muros. Aí o graffiti se espalha pela comunidade inteira, não fica só na rua principal. (Maria Simone, depoimento a Kelma Gallas, 2025)

As atividades concentraram-se na Praça Cultural do Dirceu e em equipamentos públicos como CRAS e escolas. A programação incluiu mutirões de graffiti, oficinas gratuitas, bate-papos, feira, batalhas de MCs e de tag, shows e ações sociais. A edição incorporou ainda oficinas de elaboração de projetos culturais e produção de eventos, indicando uma preocupação com a profissionalização e sustentabilidade da cena. A relação com o poder público, descrita por Maria Simone, revela um processo de negociação que não suprime o caráter autônomo do coletivo, mas o insere em circuitos institucionais:

Hoje, a gente tem uma relação boa com o poder público. Existem leis de incentivo, eles já conhecem o que é a arte urbana, as culturas periféricas, o hip hop. Ainda é difícil quando se fala em dinheiro, em patrocínio, mas quando você chega com uma proposta boa e uma contrapartida, as coisas acontecem. Em 2025, no festival do Dirceu, conseguimos patrocínio da Secretaria de Segurança Pública: som e tenda. A contrapartida foi levar ações positivas da secretaria para o festival. Teve ação social, corte de cabelo, ótica, feira, oficinas de graffiti, oficina de desenho e oficina de elaboração de projetos para artistas participarem de editais. Não foi só graffiti. Foi um festival com várias ações, com impacto social real. (Maria Simone, depoimento a Kelma Gallas, 2025)

A 7ª edição reuniu mais de 150 artistas de 14 estados brasileiros e quatro países — Colômbia, Chile e Argentina —, com forte concentração nordestina. Entre os 20 artistas piauienses convidados: DC, Hudson Melo, WG, Maguim, Dhieck, Samu, Ted Rap, Paola Viic, Xaio, Potiza, Irix, Geeh, Yago, Jam, Paco, Magnata, Slim, Vini, Briseno e Madibu.

[Figuras — Painel de artistas presentes na 7ª edição do festival em 2025]

Ao longo de sua trajetória, o Ruaz Crew atravessou perdas, rupturas e reconfigurações internas que testaram a sustentabilidade do projeto. O assassinato de Laércio Sinza em 2022 foi o momento mais crítico dessa trajetória — não apenas pela ausência do fundador, mas porque evidenciou a vulnerabilidade específica dos agentes da cultura periférica no Brasil. A continuidade do festival, sob a gestão de Maria Simone, demonstrou que a permanência de um projeto cultural desse tipo depende de vínculos territoriais e da capacidade de reinvenção do coletivo, tanto quanto de recursos materiais. O Ruaz Crew inscreveu-se na história do graffiti teresinense não apenas pelas obras nos muros, mas pelo que construiu entre pessoas, bairros e gerações — afirmando a periferia como espaço de criação, pensamento político e produção de pertencimento.