Corja Crew

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A Corja Crew surgiu em Teresina em 2012, em um período de ampliação das articulações coletivas do graffiti local, que buscavam ampliar suas formas de ocupação da cidade. Criada a partir da convergência entre Washington Gabriel (WG), Arthur Doomer, Artur Miranda (Krower), Gardel Tibicuera (Gardel Mendes), Gilson Magno e Malcom Jefferson (Sr. Malcom), a crew reunia artistas com repertórios distintos e já indicava uma característica que permaneceria associada à ela: a convivência, em trabalhos coletivos, de procedimentos como personas, 3D, realismo, wildstyle, stencil e outras experiências vinculadas à street art.
A Corja se constituiu no interior da Casa do Hip Hop, espaço que, ao longo da década de 2010, se tornou uma referência para práticas artísticas, formativas e políticas vinculadas à cultura hip hop na capital. A relação com a Casa do Hip Hop é estruturante na trajetória do grupo. A Corja utiliza a Casa como espaço de criação, residência artística, intercâmbio e formação. Essa permanência contribuiu para que a crew ultrapassasse a dinâmica dos encontros ocasionais para estabelecer uma atuação continuada, articulando produção artística e transmissão de conhecimentos.
Em 2018, a própria Casa do Hip Hop identificava o Ateliê de Graffiti/Corja Crew como espaço de criação e produção destinado também a residências de artistas, exposições e oficinas gratuitas para a comunidade. A presença da crew nesse ambiente a inseria em uma rede mais ampla de práticas culturais, ao lado de grupos de breaking, projetos comunitários, ateliês, atividades musicais e ações de formação que ocupavam a Casa. Não se tratava, portanto, apenas de uma sede física, mas de um espaço de convivência no qual produção artística e circulação de conhecimentos se aproximavam.
Essa dimensão formativa já aparecia em ações anteriores. Em novembro e dezembro de 2016, por exemplo, a Corja Crew participou, ao lado da VDC Crew e da Matilha Crew, do projeto “A arte do grafite na trilha do conhecimento”, destinado a estudantes da rede pública estadual. As oficinas incluíam história do graffiti, técnicas de desenho e pintura e atividades práticas. A participação em iniciativas dessa natureza ajuda a compreender como a atuação da crew passou a circular entre os rolês, a produção de murais, o ateliê e projetos realizados em parceria com instituições públicas e culturais.
Em abril de 2018, a Corja realizou sua primeira exposição coletiva, no Alquimia Café Bar, em Teresina. A divulgação do evento registrava como integrantes Arthur Doomer, Artur Miranda (Krower), Gardel Tibicuera, Gilson Magno, Malcom Jefferson e Washington Gabriel, destacando a diversidade de linguagens presentes no grupo. A exposição formalizava, em um espaço cultural, uma produção que se constituíra principalmente no contato com a rua e com os circuitos do hip hop.
Um dos episódios relevantes para observar a ampliação da presença pública desses artistas ocorreu no espaço situado sob a Ponte Juscelino Kubitschek, a Ponte JK. A requalificação daquela área antecede as pinturas da Corja. Em agosto de 2017, o Governo do Estado entregou uma das praças construídas sob a ponte, denominada Complexo Francisco das Chagas de Araújo Costa Júnior, em homenagem a um dos idealizadores do Coletivo Salve Rainha, falecido em 2016. A documentação jornalística registra que a reforma foi motivada também pelas ocupações realizadas pelo Salve Rainha em 2015 e 2016. Desse modo, a conversão do espaço em equipamento cultural não pode ser atribuída ao graffiti produzido posteriormente, mas deve ser compreendida como parte de uma sequência anterior de ocupações culturais e intervenções do poder público.
Em 2018, artistas ligados à Corja Crew participaram das pinturas realizadas nos pilares e demais estruturas do complexo. Entre os nomes documentados estão WG, Gardel Mendes e Malcom Jefferson. As intervenções passaram a conviver com anfiteatro, áreas de exposição e outros usos culturais previstos para o local.

A presença do graffiti em estruturas de grande escala e em um eixo de circulação entre o Centro e a zona Leste ampliava a visibilidade de linguagens que, em outros momentos, apareciam sobretudo em muros, viadutos e superfícies dispersas pela cidade.
Nesse conjunto encontram-se obras associadas aos repertórios individuais dos artistas, entre elas A Senhora das Águas, de WG, e Menina e as Flores, de Gardel Mendes. As artes em sequência nos pilares da Ponte JK permitiu a coexistência de realismo figurativo, personagens, grafismos, experimentações cromáticas e elementos tipográficos.
A unidade do espaço não eliminou as diferenças autorais; ao contrário, fez da justaposição de linguagens um dado perceptível da intervenção.
A experiência da Ponte JK também permite observar uma mudança nas condições de produção. Parte do graffiti teresinense, historicamente vinculada a iniciativas autônomas, passou a realizar trabalhos autorizados, comissionados ou integrados a equipamentos e projetos culturais. Essa mudança não substituiu as práticas de rua, mas acrescentou outras formas de negociação do suporte, de acesso a recursos e de interlocução com instituições.
Outro episódio documentado ocorreu em 2021, durante a restauração do painel Turismo no Piauí, obra de Nonato Oliveira criada em 1994 no Centro de Convenções de Teresina. A documentação disponível exige uma correção importante: a restauração foi coordenada pelo próprio Nonato Oliveira, e não por WG. Washington Gabriel participou do trabalho com artistas de sua equipe. As fontes registram, entre os participantes, WG, Malcom Jefferson, Phillip Marinho, William e Jarlexandre. A intervenção aproximou artistas ligados ao graffiti e ao muralismo contemporâneo de uma obra de referência da produção mural piauiense, mas a autoria e a coordenação da restauração devem permanecer atribuídas a Nonato Oliveira.
A partir de 2021, alguns integrantes da Corja também aparecem vinculados ao Festival de Arte Urbana Retalho. Em alguns registros, WG aparece como o artista que concebeu o evento. Mas as fontes jornalísticas também identificam a produtora Érica Santos integrando a organização do evento desde as suas primeiras edições. O artista Malcom Jefferson, filho de WG, também aparece como um dos coordenadores e curadores do festival. Hudson Melo participa desde as primeiras ações e integra intervenções centrais do projeto. Assim, pode-se compreender o Retalho como uma articulação produzida por agentes da cena local, destacando-se um núcleo central formado por WG, Malcom Jefferson e Hudson Melo, com participação recorrente de outros artistas como Gardel Mendes nas intervenções.
Embora os dados convergentes, não há como tratar o Retalho como uma iniciativa institucional da Corja Crew nem atribuir indistintamente à crew a organização de todas as suas edições. O festival, conforme os dados, constitui uma articulação própria, embora mantenha vínculos evidentes com artistas que integram ou transitam pela Corja e por outros coletivos da cidade.
A trajetória da Corja Crew, assim, não se organiza em uma passagem linear da rua para a instituição. O que a documentação permite observar é a sobreposição de circuitos. A crew manteve vínculos com a Casa do Hip Hop, participou de ações formativas, exposições e intervenções urbanas, realizou trabalhos em espaços públicos e integrou projetos de maior escala. Essa circulação entre diferentes condições de produção tornou-se parte da própria configuração do graffiti em Teresina durante a década de 2010 e o início dos anos 2020