VDC Crew

Compartilhe!

A Vai Dar Certo Crew (VDC Crew) é um coletivo de grafiteiros sediado na Zona Norte de Teresina (PI), criado em 2015, que atua no campo da arte urbana articulando produção estética, ação social e formação cultural. Organizada como uma comunidade de prática fundada em afinidades, colaboração e identidade coletiva, a VDC reúne artistas que utilizam o graffiti como linguagem de intervenção no espaço público, promovendo murais, oficinas, cursos e projetos educativos em escolas, comunidades e equipamentos urbanos.
Sob liderança de Du Alemão (José Eduardo Borges), o coletivo construiu uma trajetória marcada pela valorização da cultura periférica, pelo diálogo com instituições públicas e pela defesa do graffiti como instrumento de pertencimento, cidadania e transformação social. Situada na intersecção entre prática artística, ativismo comunitário e economia criativa, a VDC articula diferentes frentes de atuação, sintetizadas no lema “Vai dar certo”, que expressa uma ética de encorajamento, pertencimento e resistência cotidiana nas periferias de Teresina.
A trajetória da crew se desenvolve em um momento de maior visibilidade pública do graffiti na cidade, impulsionado por festivais, mutirões e parcerias institucionais. Nesse contexto, o coletivo se estrutura a partir da compreensão do graffiti como ferramenta de transformação social, especialmente junto a jovens das periferias urbanas:

Em 2015, fundamos a VDC. Tinha 15 grafiteiros. Hoje tem uns quatro. O Maku era um: é quem fez o graffiti no prédio em frente à Igreja São Benedito, no prédio em frente ao Karnak. O Magnata, vem da pixação. Tinha o Zero, filho da Simone, que começou na VDC e hoje é DJ. O Apolo, que é o coordenador do CEM, era o Snoop; hoje é da Igreja. O Tom é o único que tá desde a fundação, junto comigo. Tem o Xato, que faz a melancia. O Shock saiu. A Simone também. Muita gente passou pela VDC. Aprendeu, seguiu seu caminho. E isso: eu ensino pra todo mundo que vem aprender comigo. Já ensinei gente que virou artista, já ensinei gente que virou professor. Já levei o graffiti pra dentro da igreja. Já pintei mural com versículo. Já pintei no CRAS, já pintei em escola, já pintei em hospital. Já fui em comunidade onde não tinha nem muro e a gente improvisou com placa de madeira. O importante é levar a mensagem. É dar voz. Porque tem muito jovem que não tem espaço. A escola não ouve, a família não entende. A arte é onde ele se encontra. E o graffiti é isso: identidade, pertencimento, resistência. (Du Alemão, depoimento 2025 a Kelma Gallas).

O relato permite compreender a crew não como uma estrutura fixa e estável, mas como um espaço de formação e circulação. Nessa perspectiva, a redução do número de integrantes ao longo do tempo não indica dissolução, mas reconfiguração relacional. A própria enumeração de nomes — Maku, Magnata, Zero, Apolo, Tom Winnex, Xato, Chock, Maria Simone — revela um mapa de trajetórias que se expandiram para diferentes campos, como música, educação, religião e gestão social. Essas saídas não são narradas como rupturas, mas como desdobramentos de um processo formativo vivido no interior da crew.
Há outros aspectos capturados pela fala de Du Alemão. Quando ele diz que “muita gente passou pela VDC, aprendeu, seguiu seu caminho”, ressalta-se o caráter formativo da Crew, definindo o coletivo pela capacidade de produzir sujeitos que circulam, traduzem e reinscrevem o que aprenderam em outros territórios simbólicos e institucionais. Isso é reafirmado em outro trecho: “eu ensino pra todo mundo que vem aprender comigo”, explicitando a crew também como uma instância pedagógica informal, na qual o graffiti funciona como linguagem de iniciação, mediação e descoberta de si. Percebe-se, assim, que na crew prevalece uma ética na qual o conhecimento não é retido como capital simbólico exclusivo, mas distribuído como prática de cuidado e responsabilidade social.
A crew acolhe, ensina, compartilha técnicas e valores, mas não exige fidelidade eterna. Como um espaço temporário de encontro, aprendizagem e pertencimento, na crew os vínculos se constroem a partir de afinidades estéticas, territoriais e éticas que, com o tempo, podem se afrouxar, se transformar ou se deslocar para outros campos de atuação. Esse caráter transitório é constitutivo das culturas urbanas, especialmente no graffiti, onde os percursos individuais raramente seguem trajetórias lineares ou institucionalizadas. Essa compreensão desloca a ideia de crew como “time fechado” ou “marca rígida” e a aproxima de uma noção mais fluida, quase rizomática, em que as conexões se fazem e se desfazem conforme as condições de vida, os afetos e as oportunidades:
A gente continua. Tô aqui agora com a camiseta da VDC. Todo dia eu boto. A gente tenta manter essa identidade, essa irmandade. Não é só fazer graffiti. É a vivência mesmo, entendeu? Quando você vê um cara da sua crew pintando num evento, você vai lá, fortalece, troca tinta, compartilha técnica. Às vezes, nem vai grafitar, mas só de estar presente já fortalece. É isso que eu acho que falta hoje. A galera nova tem talento, mas falta mais união, mais presença. Tá muito cada um por si. Antigamente, a gente se encontrava num lugar só pra trocar ideia. Hoje todo mundo fica no Instagram (Du Alemão, depoimento 2025 a Kelma Gallas).
A afinidade é entendida como um elemento central na formação das crews, não sendo entendida como pacto permanente, mas como acordo provisório, sustentado enquanto faz sentido para os envolvidos. No entanto, nesse depoimento, trechos da fala de Du Alemão podem ser interpretados como uma crítica geracional à transformação das formas de sociabilidade no interior do graffiti: “tá muito cada um por si”; “antigamente, a gente se encontrava num lugar só pra trocar ideia”, enquanto “hoje todo mundo fica no Instagram”.
Du Alemão aponta para um deslocamento do eixo coletivo da prática do graffiti: da presença física, do encontro e da convivência prolongada, para a mediação digital, marcada pela visibilidade individual e pela circulação de imagens nas redes sociais. Para Du Alemão, o que está em jogo não é a perda da técnica ou da criatividade, mas o enfraquecimento da dimensão relacional do graffiti, historicamente construída em torno do rolê, da troca de ideias, do aprendizado compartilhado e da experiência corporal da cidade.
A VDC Crew desenvolve um trabalho social contínuo e estruturado, utilizando o graffiti como ferramenta de formação, inclusão e transformação social. Desde 2015, o coletivo atua na realização de oficinas gratuitas de graffiti para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, em parceria com órgãos públicos como a COJUV-PI e a Fundação Wall Ferraz. Até 2023, já eram mais de 80 oficinas promovidas em Teresina e no interior do Piauí, articulando estética, cidadania e cultura hip hop. Du Alemão defende que esses espaços formativos são relevantes para as populações periféricas: “na periferia, a arte e a cultura são privilégios distantes para a maioria dos jovens. Eu sei bem como é isso: vim de uma realidade dura e conheço o valor de um simples tubo de tinta” (Meio News, 2024).
A VDC também tem participado, desde sua criação, de projetos de revitalização urbana. Em 2021, durante a pandemia da Covid 19, o coletivo integrou os projetos de arte urbana da Equatorial Energia Piauí, intervindo artisticamente nos muros da subestação Jockey, zona leste de Teresina. Em entrevista sobre o assunto, Du Alemão disse que aquele empreendimento subsidiado traria maior visibilidade para o trabalho do coletivo. Além disso, ressaltou que a cultura deveria ser considerada um investimento devido ao seu poder de transformar vidas, ser fonte de renda para várias pessoas e tirá-las do mundo do crime e das drogas, contribuindo com o processo de ressocialização.
Essa agenda voltaria a aparecer em outro momento da trajetória da VDC Crew, em 2022, quando o coletivo foi convidado a realizar uma intervenção artística no Viaduto da Tabuleta, obra de mobilidade urbana localizada na zona sul de Teresina, na ligação entre as avenidas Barão de Gurgueia e Henry Wall de Carvalho. Segundo Du Alemão, o convite partiu da Superintendência de Ações Administrativas Descentralizadas Sul (SAAD Sul).
A intervenção ocorreu no contexto das ações relacionadas aos 170 anos de Teresina, período em que a inauguração de obras públicas era associada, no discurso institucional, às ideias de desenvolvimento e modernização da cidade. A presença da VDC Crew em uma infraestrutura de grande circulação indicava, nesse contexto, uma mudança na rota do coletivo, cuja trajetória havia sido construída principalmente em bairros periféricos e que passava a trabalhar, mediante convite do poder público, em equipamentos urbanos de ampla visibilidade.
A escala da intervenção levou o coletivo a reunir artistas de diferentes trajetórias. Além de integrantes da VDC, como Du Alemão, Xato e Rika, participaram, como convidados, Isadora Arj, Leandro Alves, Alessandro Galeno, Sidney Resende, Rômulo Briseno e Hailton Rodrigues.
Nessa intervenção, a escolha técnica foi pelo xilograffiti, estilo que aproxima os recursos visuais da xilogravura das técnicas e da escala do graffiti. Observadas em conjunto, as pinturas do Viaduto da Tabuleta constroem um repertório visual fortemente relacionado ao imaginário nordestino e às experiências sociais do território. Figuras de trabalhadores, mulheres, personagens populares, aves, cactos, elementos religiosos, cenas rurais e referências à cultura sertaneja aparecem submetidos à síntese gráfica do xilograffiti, com contornos marcados, áreas chapadas e predominância do preto e branco, embora algumas composições introduzam cores pontuais. As imagens confirmam a proposta atribuída à VDC de aproximar a estética da xilogravura das técnicas do graffiti, convertendo os pilares do elevado em uma sequência de narrativas visuais.
Outra importante atuação da VDC Crew é um trabalho social contínuo e estruturado, utilizando o graffiti como ferramenta de formação, inclusão e transformação social. Desde 2015, o coletivo realiza oficinas gratuítas de graffiti para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, em parceria com órgãos públicos como a COJUV-PI e a Fundação Wall Ferraz. Até 2023, o coletivo contabilizava mais de 80 oficinas promovidas em Teresina e no interior do Piauí, articulando estética, cidadania e cultura hip hop. Du Alemão defende que esses espaços formativos são relevantes para as populações periféricas: “na periferia, a arte e a cultura são privilégios distantes para a maioria dos jovens. Eu sei bem como é isso – vim de uma realidade dura e conheço o valor de um simples tubo de tinta” (Meio News, 2024).
Entre a rua, a escola, os projetos sociais e as intervenções de grande escala, o coletivo evidencia que o graffiti pode operar simultaneamente como prática estética, ferramenta pedagógica e estratégia de inserção social. Mais do que a permanência de seus integrantes, o que sustenta a VDC vem demonstrando que um coletivo se sustenta pela capacidade de produzir vínculos, formar sujeitos e reinscrever, em diferentes territórios, uma ética baseada no pertencimento, na partilha e na transformação. Nesse movimento, a crew não apenas ocupa a cidade, mas contribui para redefinir suas formas de uso, percepção e significado, reafirmando o papel dos coletivos na sustentação e renovação da cultura de rua.