Compartilhe!

Laércio Andrade Serafim, conhecido como Laércio Sinza, foi grafiteiro, educador social e um dos principais articuladores da cultura Hip Hop e do graffiti na zona Norte de Teresina. Nascido em 28 de janeiro de 1988, em Teresina (PI), Sinza teve seu primeiro contato com o graffiti ainda na adolescência, aos 14 anos, quando começou a se aproximar das linguagens urbanas como forma de expressão, pertencimento e leitura crítica do território em que vivia.
Em 2005, na Escola Itamar Brito, participou de sua primeira oficina de graffiti, ministrada pelo professor e grafiteiro Du Alemão, experiência que marcou definitivamente sua trajetória. À época, residia no bairro Anita Ferraz, e foi a partir desse contato inicial que passou a se envolver de maneira mais sistemática com a cultura Hip Hop, compreendida por ele como espaço educativo, político e comunitário. Posteriormente, Sinza frequentou a Casa do Hip Hop, onde ampliou sua formação cultural e fundou o grupo Raciocínio, voltado à música rap, com o qual gravou cinco discos que tematizavam o cotidiano da periferia, as desigualdades sociais e a vida juvenil nos bairros populares de Teresina.
Conforme descreve na revista RUAZ nº 1 (2018), Laércio Sinza se entendia como um artista socialmente engajado e articulador cultural, que usava a arte como método de ensino e intervenção artística em favor da cidade. “Hoje, o graffiti é a melhor forma de chegar a uma aproximação com o jovem de periferia”. Para ele, essa arte poderia ser usada tanto como válvula de escape como em uma perspectiva profissional.
Em 2013, Sinza fundou o coletivo Ruaz Crew, adotando, como sede simbólica e prática, a região da Santa Maria da Codipi. Para ele, o coletivo tinha como objetivo principal, desenvolver atividades artísticas com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, utilizando o graffiti como ferramenta de educação, cuidado, saúde e fortalecimento da autoestima.
Em 2014, ele participou, como grafiteiro, de seu primeiro grande evento: o Encontro Teresinense de Graffiti, evento que abriu as portas para inúmeras possibilidades de auto-organização do movimento de graffiti na cena local. Determinado a contribuir com o movimento, nos anos seguintes, organizou as três primeiras edições do Festival Ruaz Crew, hoje, o maior e mais importante evento nessa categoria do Piauí e um dos mais relevantes do Norte e Nordeste brasileiro. Além do Festival Ruaz Crew, Laércio Sinza organizou mutirões, oficinas e intervenções urbanas em diversos bairros de Teresina e em outras cidades do Piauí e Maranhão, projetando o nome do coletivo no circuito nacional do graffiti.
A Associação Positividade, criada por Laércio Sinza nesse contexto, funcionava como uma extensão organizativa e ética de sua atuação no graffiti, voltada à formalização de ações sociais já desenvolvidas de maneira orgânica nos territórios periféricos de Teresina. A Positividade era uma plataforma comunitária de intervenção social, articulando arte urbana, educação informal e cuidado com a juventude em situação de vulnerabilidade. A organização nasceu da convicção de Sinza de que a rua poderia ser espaço de aprendizado, saúde e proteção, e de que a arte, quando enraizada no território, atuaria como estratégia concreta de resistência cotidiana e construção do direito à cidade.
Sua trajetória foi interrompida no dia 8 de agosto de 2022. Assassinado a tiros no bairro Água Mineral, na zona Norte de Teresina, Sinza deixou, como testamento uma vida dedicada às causas sociais. Sua morte violenta não pode ser lida como fato isolado, mas como expressão das condições estruturais de vulnerabilidade e violência que atravessam a juventude periférica brasileira, inclusive aqueles que produzem cultura, arte e alternativas de vida fora da lógica da marginalização.
O legado de Laércio Sinza permanece vivo no Ruaz Crew, nos festivais que ajudou a fundar, nos muros que transformou em linguagem e, sobretudo, na compreensão do graffiti como prática coletiva de cuidado, resistência e direito à cidade. Sua trajetória inscreve-se como memória ativa da cultura urbana teresinense e como referência incontornável para a história do graffiti no Piauí.