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A Bixaria Crew (BxR) surgiu na cena do graffiti teresinense em 2023, constituindo-se como o primeiro coletivo de grafite LGBTQIAPN+ do Piauí. Formada majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, a crew articula produção artística, ocupação do espaço urbano e experiências de pertencimento no interior da cultura hip hop. Sua formação introduziu na cena local uma organização coletiva orientada pela presença de sujeitos historicamente menos visíveis nesses circuitos, sobretudo em um campo constituído, durante décadas, por uma participação predominantemente masculina. Como um coletivo de artistas jovens, com trajetórias universitárias e práticas de ativismo em direitos LGBTQIAPN+, cultura periférica e produção cultural independente, a crew se apresenta como resposta a uma ausência histórica: a sub-representação de corpos dissidentes em uma cena ainda marcada por dinâmicas masculinizadas, hierarquias implícitas e mecanismos seletivos de reconhecimento.
Uma das lideranças é Ayan Beatrix Pereira Gomes, psicólogue, pessoa trans não binárie, bissexual e pesquisadorie em gênero e sexualidade, vinculado ao campo da antropologia urbana.
Como relata Ayan Beatrix, “eu comecei a me juntar com outras mulheres e outras pessoas LGBTQIAPN+ da cena, para a gente poder pintar […] e por meio dessa rede […] a Bixaria nasceu”. A afirmação evidencia, porém, que a crew não nasceu de um projeto formal previamente estruturado, mas de uma necessidade concreta de reorganização do espaço de criação.
Outras presenças ativas do coletivo são a arte-educadora Clara Soares, conhecida como Potiza, cuja produção evidencia rigor técnico e consolidação estética; Jujuba, uma das mentes por trás da Batalha das Marias, que articula arte urbana, cultura popular e práticas de cuidado; Yago Feitosa, profissional de tecnologia da informação, grafiteiro que atua no graffiti com a temática do afrofuturismo, convidado a participar do coletivo.
O coletivo também tem colaboradoras com perfis mais acadêmicas, como Ísis Sabino, Lux Ferreira Lima e Silvana Nascimento, cujas contribuições permitem compreender essas práticas para além do campo artístico, situando-as como formas de produção de conhecimento, de reconfiguração do sensível e de disputa pelos modos de existência na cidade.
A formação do coletivo, portanto, não respondeu apenas à afinidade estética, mas à necessidade de construir redes de apoio, confiança e proteção mútua, considerando que a predominância masculina na cena do graffiti e hip hop, pode impor barreiras simbólicas e materiais à inserção plena de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ .
O repertório visual da Bixaria também incorpora uma dimensão política ao inscrever no espaço urbano figuras que tensionam normatividades de gênero e representação: “é uma forma de me colocar ali dentro do muro […] de mostrar essas figuras que são transgêneros e que tão também transitando […] pela cidade”, diz Ayan. Ao afirmar que “o graffiti […] ainda é um movimento extremamente machista e misógino”, Ayan Beatrix explicita que a emergência da Bixaria não se dá em um campo neutro, mas em um território atravessado por exclusões e disputas. A crew, portanto, não apenas ocupa espaços já existentes, mas contribui para reconfigurá-los, tensionando as formas de acesso, permanência e reconhecimento no interior da cultura de rua.
Deslocando a perspectiva para o campo da biorresistência, o graffiti e o pixo deixam de ser compreendidos como práticas marginais para serem reconhecidos como formas de produção de vida. Ao inscrever frases como “Salve as Bixas!” ou ao produzir personagens dissidentes nos muros da cidade, essas intervenções não apenas ocupam o espaço: elas o reconfiguram. Como sugere Ayan, trata-se de uma juventude que “recria, disputa, ocupa, transforma a cidade” a partir de suas próprias experiências e urgências (GOMES, 2024).
Essa dimensão torna-se ainda mais aguda quando articulada à lógica necropolítica que atravessa a cidade contemporânea. Se o espaço urbano é também um dispositivo de gestão da vida e da morte, determinados corpos são sistematicamente empurrados para zonas de precariedade extrema, nas quais a violência se naturaliza.
Mais que graffitis, são gestos políticos que mobilizam a memória como prática ativa, capaz de interromper os processos de apagamento que atravessam corpos dissidentes. Essa operação adquire maior densidade quando articulada à lógica necropolítica que estrutura a cidade contemporânea. Se determinados corpos são historicamente expostos a regimes de morte — simbólica e material —, o pixo-denúncia desloca o olhar da violência estrutural, associada ao esquecimento e uma política de invisibilidade, para o campo da resistência.
As práticas da Bixaria evidenciam que a biorresistência não se limita à produção de imagens ou à ocupação do espaço físico, mas se estende à produção de memória como forma de permanência. E é precisamente nesse ponto que o coletivo adquire sua densidade política mais radical. Se o gesto individual pode ser compreendido como tática, no sentido de um contra-uso do espaço regulado, o coletivo transforma essa tática em permanência. A Bixaria não apenas subverte os usos previstos da cidade, mas produz outros modos de habitá-la, instaurando espaços de reconhecimento onde antes havia apenas circulação hostil. Mais do que ocupar, trata-se de sustentar a ocupação.
Nesse enquadramento, coletivos como a Bixaria não podem ser lidos apenas como agrupamentos identitários ou artísticos, mas como verdadeiras infraestruturas de existência. Eles articulam proteção física, elaboração simbólica e produção política, permitindo que sujeitos historicamente marginalizados não apenas apareçam, mas permaneçam.
Se, como afirma Ayan, “a cidade também são as bixas”, isso não se dá por concessão, mas por disputa. O muro, então, deixa de ser superfície neutra e passa a operar como campo de batalha: lugar onde se inscrevem memórias, denunciam-se violências e, sobretudo, afirmam-se vidas que insistem em existir.
Há, nisso tudo, uma dimensão epistemológica, uma vez que a arte feita a partir da dissidência produz um deslocamento no repertório visual e narrativo da cidade. A presença de personagens femininas, negras, e corpos dissidentes não é apenas representacional, mas performativa: inscreve novas possibilidades de existência humana no espaço urbano. A atuação conjunta fortalece a confiança e encoraja a permanência dessas mulheres e LGBTQIAPN+ na cena, rompendo com a lógica de invisibilização historicamente imposta. Ao enfatizar o graffiti e o pixo como práticas de produção de cidade a partir da experiência dissidente, a Bixaria Crew evidencia que essa produção não se dá de forma individualizada, mas profundamente mediada por vínculos coletivos. Na prática, o foco recai sobre o “fazer-cidade”, atravessado por uma dimensão estratégica: não basta existir, é preciso existir em rede, em condições minimamente seguras.
No primeiro rolê de graffiti realizado pelo coletivo após a morte brutal da travesti Paloma Silva, em dezembro de 2023, no Centro de Teresina, a ideia de biorresistência se tornou mais evidente nas ações do coletivo:
O primeiro momento com a Bixaria diz respeito a um dia no início de janeiro que nos propomos a pintar na zona leste, próximo a casa de Pancs e depois fazer uma guacamole recheada de fofoca após a pintura. A casa de Pancs foi o ponto de encontro. Éramos Quale, Potiza, Pancs, Muri, Lore e eu.
Cada um levou o material que tinha disponível e descemos caminhando para o terreno abandonado que viria a ser ocupado com nossos personas e riscos. Ao chegar lá, avaliamos o local, retiramos um pouco do mato que cobria algumas telas, cada ume demarcou seu espaço, misturamos as tintas e pigmentos, Potiza ligou a caixa de som e iniciamos os desenhos. Nesse dia também tivemos a companhia de uma amiga (mulher cis) de Lore que chegou pouco tempo depois do início da ocupação. Após terminar meu Bomb, vi que Potiza estava pixando outros espaços no mesmo muro, peguei meu spray e acompanhei. Fizemos xarpis e duas frases: “Salve as Bixas!”, “Salve as os es Trans”. Quando terminei, ofereci o spray para Pancs e logo em seguida para Muri. A medida que cada ume ia terminando seu desenho, dava-se início aos pixos. Finalizamos os trabalhos e seguimos para casa a fim de fazer a Guacamole e conversar ainda mais (GOMES, 2024).
Observa-se, nessa perspectiva, que o coletivo não se configura como mero arranjo organizacional, mas como uma resposta política concreta à heteronormatividade, à misoginia e ao assédio que atravessam tanto a cidade quanto a própria cena do graffiti. Em outra frente, também opera na formação, proteção e produção simbólica junto a populações vulneráveis. Um exemplo disso ocorreu em 2025, quando a Bixaria se uniu ao coletivo Francisca Trindade, na região da Água Mineral, zona norte de Teresina, na produção de um mural dedicado à trajetória de Francisca Trindade, uma liderança negra, professora e política brasileira filiada ao Partido dos Trabalhadores, falecida em 2003. Reafirmando o graffiti como ferramenta de produção de memória e disputa simbólica, o mural se tornou um manifesto de resistência e memória.
No hip hop, a inserção da Bixaria ocorre por meio de iniciativas como a Batalha das Marias (BDM), que tem funcionado como ferramenta de transformação social para jovens mulheres e crianças da periferia. A BDM vem reconfigurando as dinâmicas do hip hop, historicamente marcadas por exclusões de gênero. Nesses espaços, o freestyle, o graffiti e o encontro coletivo operam de forma integrada, produzindo ambientes que articulam criação artística, formação e pertencimento.
Em 2026, a atuação da Bixaria avançou ainda mais nessa proposta ao ocupar a Casa do Hip Hop com a realização de uma oficina de Baby Vogue, incorporando ao seu repertório as práticas das culturas ballroom e das expressões corporais dissidentes. Ao propor uma atividade voltada à exploração de “poses, linhas, musicalidade e expressão corporal”, a crew deslocou sua atuação para o campo do corpo como linguagem, ampliando os limites do graffiti enquanto prática estritamente visual. Nesse movimento, o coletivo passou a ser também espaço de performance, no qual imagem, gesto e presença se entrelaçam na construção de novas formas de existir e se expressar no espaço urbano.