VQR Crew

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A VQR – Vandals Quebrando Regras – emergiu na cena do graffiti teresinense entre os anos de 2009 e 2010, constituindo-se como um dos coletivos mais antigos de Teresina. Fazem parte do grupo artistas reconhecidos por suas trajetórias individuais e pela consistência técnica de suas produções, como Adriano Camelo, Gleydson “Maguim”, Hudson Melo (udz), Rômulo Brisa, Vinícius (Vini), Marcelo Arca e Dhieck.
Como um arranjo coletivo entre artistas experientes que, ao longo de suas trajetórias, consolidaram linguagens próprias no campo do graffiti, a VQR aproxima-se da lógica do vandal, não no sentido estritamente pejorativo, mas como afirmação de uma autonomia frente às normatividades que regulam o uso do espaço urbano.
Essa característica se articula diretamente ao próprio nome do grupo. A sigla VQR — Vandals Quebrando Regras — remete a uma simbologia interna do graffiti associada à ação rápida, direta e pouco institucionalizada. Como descreve Brisa, trata-se de uma prática que não se orienta por protocolos rígidos: “onde a gente sai para pintar, chegamos, escolhemos um lugar aleatório, sem seguir muita formalidade, pintamos e seguimos. E ali vai ficando as nossas marcas, nossos símbolos, a nossa arte”.
Do ponto de vista técnico, essa orientação se expressa na predominância do estilo conhecido como bomb, caracterizado por execuções rápidas, com letras arredondadas e forte impacto visual. Como aponta Brisa, “a maioria trabalha com letras”, embora haja variações internas, com alguns integrantes desenvolvendo também personagens, como é o seu caso, de Vinícius e Hudson Melo. Essa coexistência de estilos reforça a ideia de que a VQR se estrutura a partir da diversidade, sem impor uma linguagem única.
Essa característica confere à VQR um perfil específico no interior da cena local: trata-se de um coletivo que não anula as individualidades, mas as articula. Como sintetiza Maguim, cada integrante atua “na pegada de personagens, na pegada de letras, na pegada da bomb”, evidenciando que a unidade do grupo não reside na homogeneidade estética, mas na capacidade de produzir intervenções conjuntas a partir de repertórios distintos.
A origem da VQR está diretamente vinculada a uma leitura crítica da própria cidade. A abundância de “muros em branco” é interpretada não como ausência neutra, mas como vazio a ser tensionado. Nesse sentido, o coletivo nasceu de uma espécie de indignação estética e política diante da paisagem urbana, assumindo como gesto fundador a decisão de “carimbar os muros”, isto é, inscrever presença onde há apagamento.
Essa inquietação de marcar a cidade com intervenções artísticas se articula com uma ética de trabalho profundamente coletiva. Diferentemente de outras formações mais fluidas, a VQR opera a partir de uma lógica de coletividade e parceria: “todo o trabalho que a VQR faz, a VQR faz em conjunto”, afirma Maguim. Mas, na dinâmica de pertencimento que ultrapassa a autoria isolada, a VQR é uma espécie de cola, que une a todos. Como afirma Rômulo Brisa, “a VKR vem de uma união, basicamente, de amigos que tem a mesma a afinidade, a mesma sintonia, de tá pintando na rua, de tá deixando o graffiti por onde a gente passa”.
A inserção da VQR em eventos e projetos urbanos evidencia essa capacidade de articulação. Em 2013, membros do coletivo participaram do projeto Arte Colore, responsável pela revitalização das pistas de skate do Parque Potycabana. A proposta visual, conforme relata Hudson Melo, um dos integrantes do coletivo, buscava “uma malha de textura” capaz de dialogar com as múltiplas práticas esportivas do espaço, integrando skate, patins e outras atividades em uma composição visual unificada. A intervenção revelou um aspecto importante do grupo: a capacidade de pensar o graffiti não apenas como inscrição, mas como projeto de qualificação estética do espaço urbano.
Ao mesmo tempo, a trajetória da VQR se insere em uma temporalidade mais ampla da cena local, marcada por continuidades geracionais. A fala de Rômulo Brisa é particularmente elucidativa nesse sentido. Ao rememorar sua entrada tardia no graffiti, quando “já tava com uns 30 e poucos anos”, ele evidencia que a cena teresinense já se encontrava em processo de consolidação no início da década de 2010, com “uma turma legal pintando bem”. Essa geração anterior, composta por nomes como Hudson Melo, Dhieck, Camelo e outros, constitui o terreno sobre o qual coletivos como a VQR se estruturam.
A dimensão coletiva, contudo, não elimina a consciência da efemeridade que atravessa o graffiti. Como observa Brisa, “os graffitis que você faz solto, aí na rua, com o tempo eles vão sumindo”, o que implica um risco constante de apagamento da própria trajetória.
A relação intrínseca com a rua é reafirmada de forma contundente por Dhieck, ao afirmar que “o ambiente em que o graffiti sobrevive é a rua”. A escolha por pintar em vias visíveis, ainda que não plenamente seguras, evidencia uma concepção de arte orientada pela circulação e pelo encontro.
Essa percepção introduz uma tensão fundamental: se, por um lado, a rua é o lugar de realização da obra, por outro, ela também é o espaço de sua perda. A necessidade de permanência, seja por meio de registros, seja pela busca de suportes mais duráveis, passou a compor o horizonte dos artistas. Agora há muita preocupação em registrar os trabalhos individuais e coletivos nas redes sociais, funcionando como portfolio e galeria. O valor da obra não está apenas em sua execução, mas em sua exposição ao olhar cotidiano: “você passa no outro dia e sente orgulho de ver seu trampo ali”, afirma Dhieck.
No plano estético, a produção da VQR se caracteriza pela articulação entre personagens e letras, frequentemente atravessadas por uma dimensão crítica. Como destaca Maguim, há um “olhar de protesto”, que se manifesta tanto em questões locais quanto em temas políticos mais amplos. Essa orientação aproxima o coletivo de uma tradição do graffiti como linguagem de posicionamento, na qual a imagem não é apenas decorativa, mas enunciativa.
A dinâmica interna da VQR revela um modelo de organização que tensiona as formas mais estruturadas de coletivo no interior da cena do graffiti. Conforme explicita Rômulo Brisa, trata-se de uma crew que não opera a partir de formalizações rígidas, mas de vínculos construídos na convivência e na afinidade: “é um grupo de amigos que tem o paixão por pintar e tem a questão da amizade, a afinidade um com o outro. A gente sempre tá se comunicando, trocando ideia, mas não tem aquela questão de tá se reunindo muito para discutir a temática de pintura, essas coisas. Os encontros rolam de forma muito espontânea”, explica.
Apesar da ausência de formalização, a crew apresenta um elevado grau de coesão, evidenciado na prática recorrente dos chamados “rolês” — momentos em que os integrantes se encontram para pintar coletivamente. Como sintetiza Brisa, “apesar da gente não ter esse formalismo todo de um coletivo, de um grupo, a gente é bem coeso e tá sempre que pode a gente tá junto aí para dar o que a gente chama dar um rolê, né, e sair para pintar”. O rolê, nesse sentido, constitui mais do que uma prática operacional: é o dispositivo central de manutenção do grupo, no qual se atualizam os vínculos, se compartilham experiências e se produz a própria existência da crew.