Festival Retalho

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O Festival Retalho vem ocupando um lugar específico no processo de institucionalização do graffiti em Teresina ao assumir o muralismo contemporâneo como uma de suas principais formas de intervenção no espaço público.
Desde as primeiras edições, o evento articulou intervenções de grande escala, ações formativas, oficinas em escolas públicas e discussões sobre a presença da arte urbana na cidade. Essa configuração permitiu compreender o festival como parte de um movimento mais amplo de reorganização das relações entre graffiti, políticas culturais e espaço urbano, no qual a pintura dos muros passou a coexistir com procedimentos de curadoria, produção cultural e financiamento institucional.
O Retalho inscreveu-se, assim, em um processo de profissionalização da produção de arte urbana que vinha se tornando mais perceptível em Teresina desde a primeira década dos anos 2000. Embora tenha passado a viabilizar suas ações por meio de parcerias institucionais e patrocínios, onde passou a operar com múltiplos instrumentos administrativos e burocráticos, o festival não abandonou as referências estéticas e sociais que caracterizavam a própria cena do graffiti.
Um aspecto que veio a marcar esse processo foi a atenção dispensada ao registro das midiático das intervenções artísticas ocorridas no espaço público. A produção dos murais foi acompanhada por registros fotográficos e audiovisuais, sendo publicada pela imprensa e em diferentes veículos de comunicação, além das próprias redes do festival. Esse procedimento teve particular importância para disseminar a proposta do festival e assegurar a permanência de uma arte marcada pela exposição ao tempo, às transformações da cidade e aos apagamentos.
O Retalho surgiu com uma proposta distinta de outros eventos de graffiti promovidos na cidade. A primeira edição do Retalho, realizada entre outubro de 2021 a janeiro de 2022, ocorreu em um período ainda marcado pelos efeitos da pandemia de Covid-19. Sua formulação inicial previa um festival estendido, organizado a partir da proposta de realização de “1 mural por semana” (CARVALHO, 2021). O formato diferenciava-se dos encontros concentrados em poucos dias e propunha uma sequência de intervenções distribuídas no tempo. A própria duração permitia acompanhar a execução das obras e sua incorporação progressiva à paisagem urbana.
Foi nesse momento que se delinearam algumas características que permaneceriam nas edições seguintes: intervenções distribuídas pela cidade, articulação entre muralismo e território, participação de artistas com repertórios distintos e produção sistemática de registros das ações, distribuídas em várias mídias.
Uma das primeiras intervenções foi a instalação denominada Contêiner, realizada em novembro de 2021. Posicionada no gramado da Ponte Estaiada, a estrutura metálica foi customizada por Washington Gabriel (WG Mucambo), Hudson Melo (Udz) e Malcom Jefferson (Sr. Malcom). Sua localização em uma área de grande circulação conferiu à intervenção uma função de apresentação pública do festival e de anúncio das atividades que começavam a ocupar outros pontos da cidade.
Outra intervenção coletiva foi realizada na Rua Tabelião José Basílio, no Jóquei, zona leste de Teresina, ocupando um muro de aproximadamente 64 metros. O mural foi produzido por cerca de dez artistas com identidades estéticas distintas: Nosila, Rômulo Briseno, Dhieck, Vinícius Ribeiro, Jamires Martins, DC Tattoo, Philippe Farpa, Ludmilla Monteiro, Nordeste Oculto e Denilson Retok. A extensão do suporte possibilitou a justaposição de repertórios diferentes, incluindo retratos realistas, personas, construções tipográficas, wildstyle, grafismos e figuras alegóricas.
Naquele ano, o festival adotou como lema “Transformar é preciso”. A noção de transformação, nesse caso, não significava apenas alteração física das superfícies, mas o próprio movimento de transformação pelo qual passava o movimento de arte urbana na cidade. Em suas discussões, o festival introduziu também questões relacionadas às condições de produção, circulação e permanência dessas obras na via pública, colocando na pauta alternativas para a preservação das intervenções realizadas na cidade. A questão colocava em evidência um dos paradoxos produzidos pela institucionalização do graffiti: uma prática historicamente constituída sob o signo da efemeridade e da ocupação autônoma passava também a negociar financiamento, autorização, conservação e memória dentro das estruturas formais da política cultural:
Quando ocupamos a cidade com murais, estamos fazendo mais que embelezar paredes: estamos construindo a identidade visual da capital, colocando a arte a serviço do pensamento crítico. Essa sempre foi uma aspiração minha e de outros artistas, mas projetos como este amplificam nosso alcance, agregando visibilidade midiática e apoio institucional – ganhamos uma dimensão transformadora que vai além do individual (Hudson Melo em entrevista à Revestrés, 2022).
Um dos destaques da edição de 2021 do Festival Retalho foi a participação de duas artistas piauienses em processo consistente de reconhecimento nacional: Aline Guimarães, conhecida como Línea, e Luna Bastos, cujas produções tem muitos pontos em comum, especialmente por trazer para o graffiti uma poética centrada na ancestralidade, na cultura afro-brasileira e na representação de corpos negros.
Localizado ao lado da Praça do Fripisa, próximo à Biblioteca Cromwell de Carvalho, o mural de Línea centrou na infância negra, tematizando “as histórias que nós podemos contar”. A obra deslocou o eixo da educação formal para uma pedagogia da memória, da ancestralidade e do brincar, sugerindo que aprender é também reconhecer-se na própria história e no próprio território. A inserção de Línea na lista Mooc 100, em 2023, confirmou a projeção de uma artista cuja obra ultrapassa o circuito local sem romper com suas matrizes culturais.
Luna Bastos, natural de Teresina, também trouxe para o Festival Retalho uma imagética ancorada na ancestralidade africana, compreendida como “espinha dorsal” de sua produção. Com murais no Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, sua atuação enfatiza a representação de corpos negros e a reconstrução de narrativas historicamente silenciadas, como declarou ao g1 ao destacar a importância de “construir novas narrativas” sobre a presença negra no espaço urbano.
A empena realizada por Luna Bastos para o Retalho, em 2021, se constitui uma das intervenções de maior impacto visual da edição. Executada na fachada da Agência de Desenvolvimento Habitacional, no centro de Teresina, a obra, com cerca de 17 metros de altura, projeta a figura monumental de uma mulher negra, de perfil, com grafismos e padrões que remetem a matrizes africanas e à estética têxtil da diáspora.
Outro destaque da edição de 2021 foram as intervenções de grande escala em um dos quiosques situados no Potycabana, parque ambiental urbano às margens do Rio Poty, consolidando a intenção de transformar Teresina em “museu a céu aberto”. Uma das faces foi ocupada por Kajaman (André Lourenço), artista nascido na Baixada Fluminense (RJ), fundador do Meeting of Favela, reconhecido como um dos maiores mutirões de arte urbana do mundo. Autodidata e com mais de 25 anos de trajetória no graffiti, Kajaman trouxe para o Festival Retalho seu estilo marcado por cores intensas, texturas e padronagens étnicas que referenciam as matrizes afrolatinas. Sua obra no Retalho articulou ancestralidade, periferia e futurismo, afirmando identidade e memória coletiva.
A outra faceta do quiosque da Potycabana foi ocupada por Ronah Carraro, artista paulistano com formação e atuação no design, cuja produção transita entre tela, madeira, papel machê e graffiti. Seu painel evidenciou sua forte inclinação gráfica: traços retos, contornos marcados e cores vibrantes estruturam personagens estilizados que dialogam com a caricatura e com o universo pop. Além de trazer um pleno domínio cromático, a composição buscava integrar linguagem urbana e repertório do design contemporâneo em uma obra de impacto visual imediato.
O painel realizado por Hudson Melo no Prédio da ATI, em dezembro de 2021, insere-se em um contexto histórico particularmente sensível: o ápice das incertezas provocadas pela pandemia da Covid-19. Localizado no Centro Administrativo de Teresina, às margens do rio Parnaíba, o mural ocupou a fachada de um dos prédios da administração pública estadual, trazendo uma reflexão sobre a crise sanitária. A figura de Hudson, de braços abertos e proporções levemente distorcidas, parece tensionar o espaço ao redor, sugerindo simultaneamente vulnerabilidade e resistência. O uso de cores vibrante, especialmente tons de vermelho, azul e rosa, contrasta com a sobriedade arquitetônica do edifício, produzindo um ponto de inflexão visual na paisagem urbana. Ao afirmar que a obra “fala um pouco sobre a situação da pandemia que mudou minha forma de ver o mundo”, o artista deu indícios de como articula na arte a experiência individual e a memória coletiva.
Em setembro de 2021, ainda no contexto da primeira edição, um gesto sintetizou o horizonte simbólico do festival – o encontro entre a tradição e a inovação: a restauração do painel “Turismo no Piauí” (1994), do artista piauiense Nonato Oliveira, um dos mais importantes muralistas brasileiros.
Localizado na fachada do Centro de Convenções, na avenida Marechal Castelo Branco, a obra, com 18 x 9 metros, já havia passado por intervenções anteriores. Em 2021, a equipe de restauração foi coordenada por WG, contando com a participação dos artistas Malcom Jefferson, Phillip Marinho, William Gabriel, Jarlexandre e Gardel Mendes. O procedimento envolveu a selagem da parede e utilização de tintas modernas com camada protetora, assegurando maior durabilidade sem descaracterizar os traços originais, especialmente o reboco cavado e a estética naïf em perfeito diálogo com a xilogravura, marcas expressivas do muralismo de Nonato Oliveira.
A restauração do painel foi uma antecipação do que viria a ser a segunda edição do Festival Retalho, em setembro de 2022, dedicada a Nonato Oliveira. O artista, nascido em São Miguel do Tapuio, em 1949, alcançava, naquele momento, mais de cinco décadas de carreira e quase 90 exposições no Brasil e no exterior.
Considerado um dos maiores muralistas brasileiros, Nonato Oliveira possui uma obra marcada por forte cromatismo, temática popular e representação do cotidiano sertanejo, se constituindo uma referência incontornável para os artistas urbanos piauienses. Ao homenageá-lo ainda em vida, o Festival Retalho reconheceu explicitamente a sua importância para a geração atual do graffiti local, herdeiro da prática monumental que estruturou visualmente a cidade desde o século XX.
Em 2022, sua gramática estética, marcada pelo cromatismo intenso, figuras frontalizadas e temática popular, foi reinterpretada em diversas intervenções urbanas no contexto do Festival Retalho. Uma dessas reinterpretações foi a customização da embarcação 4 de Abril, utilizada na travessia fluvial entre Teresina e Timon, com cores e repertório visual típico de Nonato Oliveira.
A proposta, executada por Hudson Melo, Malcom Jefferson, Gardel Mendes e Washington Gabriel, permitiu que a estética de Nonato Oliveira deixasse a fixidez da paisagem urbana para circular pelas águas do rio, tornando-se experiência compartilhada.
Outra homenagem ao artista foi o mural de 70 m² produzido por Denilson Retok em parceria com Philippe Farpa, nas proximidades da Ponte Metálica João Luís Ferreira. A composição não apenas reconheceu a presença de Nonato Oliveira na história visual do Piauí, mas colocou o artista do muralismo naif em diálogo com o graffiti contemporâneo.
A composição apresenta três representações do artista: o retrato frontal, em posição central, circundado por um halo ornamental; e dois perfis laterais que sugerem deslocamento e continuidade temporal. O tratamento hiper-realista das faces, com domínio de luz, sombra e textura da pele, deixou evidente a precisão técnica de Retok e Farpa, reconhecidos por sua atuação no campo do realismo urbano.
Na área central do painel, a representação de Nonato é atravessada por detalhes em caligraffiti, técnica que funde caligrafia artística e graffiti, incorporando letras estilizadas, grafismos fluidos e traços de inspiração tipográfica como elementos plásticos da composição. Esses signos lineares, organizados em torno da cabeça do artista, operam como moldura simbólica e como campo semântico, evocando memória, identidade e inscrição cultural. Em contraste com os retratos em escala de cinza, os painéis laterais retomam a paleta vibrante e as figuras estilizadas associadas à iconografia clássica de Nonato, criando um diálogo entre hiper-realismo, grafismo contemporâneo e tradição muralista. A síntese visual não apenas homenageia o artista, mas reinscreve sua herança estética no léxico do graffiti atual, afirmando a continuidade entre memória e invenção na paisagem urbana de Teresina.
A Avenida Maranhão, onde situa-se essa homenagem, tornou-se o eixo narrativo e simbólico do Retalho em 2022. A avenida recebeu uma das mais extensas intervenções de arte urbana de sua história: a customização de 36 pilares de sustentação da linha férrea conectada ao Shopping da Cidade, ocupando aproximadamente três quilômetros.
Convertidos em suportes narrativos, os pilares pintados funcionaram, em seu conjunto, como um repertório iconográfico dotado de sentido próprio, que podia ser lido isoladamente ou como páginas de um mesmo livro de arte. O resultado consolidou a proposta do festival de requalificar o espaço público por meio da arte.
A estética free style adotada por artistas como Hudson Melo, Malcom Jefferson e WG reforçava a dimensão autoral e contemporânea dessa intervenção. Peixes em diversos formatos, embarcações, frutos, aves e figuras humanas estilizadas, remetiam diretamente à paisagem ribeirinha do Parnaíba e às histórias de trabalhadores anônimos que por ali transitam diariamente. Como destacou WG, tratava-se de intervir em uma área considerada por muitos como esquecida, devolvendo-lhe visibilidade e densidade cultural.
Em 2024, na terceira edição do Festival Retalho, o evento ampliou seu escopo para além da produção de murais e assumiu explicitamente uma dimensão formativa, promovendo oficinas de iniciação ao graffiti em escolas públicas, destinadas a estudantes do ensino médio. O festival ampliava, assim, sua atuação para além da execução de murais, incorporando atividades de transmissão de técnicas e repertórios da arte urbana.
Em 2024, conforme noticiado, o festival Retalho “invadiu o centro de Teresina para colorir ainda mais a cidade”, reafirmando esse território como eixo simbólico da curadoria. Nisso, o artista parnaibano Feijão foi central para a terceira edição do Retalho, produzindo um mural nas proximidades da Igreja de São Benedito. A arte, marcada pelo uso recorrente de tons terrosos, amarelos saturados e variações quentes de laranja, compõe uma paleta de cores que remete diretamente às tradições nordestinas: da materialidade do barro à luminosidade dos cenários banhados pelo sol intenso, atravessando as paisagens sensíveis do litoral ao sertão. A escolha cromática de Feijão operou como um marcador de pertencimento, enraizada nas experiências locais, aproximando o graffiti das tradições artesanais.
Outro trabalho importante e intimamente associado ao ciclo da terceira edição é a grande empena realizada pelo artista WG na movimentada Rua 24 de Janeiro. A execução dessa obra, originalmente prevista para o ano de 2024, acabou por começar somente no dia 17 de janeiro de 2025, estendendo-se por um período superior a dez dias consecutivos. A escolha da região próxima ao Karnak, que é a sede da administração estadual, não foi uma decisão aleatória ou casual: tratava-se de reinscrever o graffiti no coração administrativo e histórico da capital, criando uma forte tensão entre as narrativas sobre abandono, memória e pertencimento que caracterizam o centro de Teresina.
A empena de WG, que possui aproximadamente 20 metros de altura, só pôde ser viabilizada após longas e complexas negociações com os proprietários do edifício onde a arte seria aplicada. Como relata WG, “foram dois anos de convencimento, de conversa com os proprietários do prédio”, evidenciando que longe de constituírem suportes neutros, os espaços urbanos são atravessados por regimes de propriedade, expectativas estéticas e disputas de sentido que condicionam, e, por vezes, limitam, a presença da arte na cidade.
Autorizado, o mural de WG apresenta uma figura infantil portando uma coroa confeccionada em papelão, com a inscrição “frágil”. O elemento desloca o imaginário da realeza para o universo da brincadeira, instaurando uma tensão entre precariedade material e potência simbólica.
Em entrevista à TV Antena 10, WG explicitou a dimensão conceitual da obra, inspirada por uma música de Roberto Ribeiro, aquele dos versos “Todo menino é um rei”, evoca a infância como território de sonho, liberdade e potência simbólica:
Esse desenho fala de criança, fala desse lado lúdico da imaginação das crianças nesse tempo de tantas telas que eles estão tendo acesso e a gente não vê mais as crianças na rua brincando, já não tem mais tanta espontaneidade. E esse desenho fala um pouco sobre isso, mas é claro que quando a gente termina cada pessoa dá sua interpretação; já não é mais meu: tá entregue para a cidade. (Washington Gabriel em entrevista ao programa Antenados, da Antena 10, em 3 de fevereiro de 2025).
Ao afirmar que “a arte nas paredes acaba sendo uma renovação” e que o centro “precisa muito disso”, WG explica muito sobre o festival Retalho se propõe menos a “embelezar” a cidade e, muito mais a interromper a naturalização de paisagens marcadas pela repetição, pelo desgaste e pela indiferença cotidiana.
Em cidades marcadas pelo avanço do concreto, pela padronização visual e pela saturação de estímulos que tendem a produzir indiferença, o espaço urbano corre o risco de se tornar opaco, funcional e, em certa medida, desumanizado. É justamente nesse cenário que festivais como o Retalho se afirmam como gesto de ruptura: ao intervir na superfície aparentemente neutra dos muros, reintroduz cor, narrativa e presença, rompendo a invisibilidade imposta pela rotina e pela poluição visual, devolvendo ao olhar aquilo que o excesso de cinza insiste em apagar.