{"id":1549,"date":"2026-09-16T16:26:58","date_gmt":"2026-09-16T19:26:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lestu.com.br\/projetos\/grafithe\/?post_type=crews&#038;p=1549"},"modified":"2026-09-16T16:29:07","modified_gmt":"2026-09-16T19:29:07","slug":"bixaria-crew","status":"publish","type":"crews","link":"https:\/\/lestu.com.br\/projetos\/grafithe\/crews\/bixaria-crew\/","title":{"rendered":"Bixaria Crew"},"featured_media":1550,"parent":0,"template":"","meta":{"perfil-crews":"<p>A Bixaria Crew (BxR) surgiu na cena do graffiti teresinense em 2023, constituindo-se como o primeiro coletivo de grafite LGBTQIAPN+ do Piau\u00ed. Formada majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, a crew articula produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano e experi\u00eancias de pertencimento no interior da cultura hip hop. Sua forma\u00e7\u00e3o introduziu na cena local uma organiza\u00e7\u00e3o coletiva orientada pela presen\u00e7a de sujeitos historicamente menos vis\u00edveis nesses circuitos, sobretudo em um campo constitu\u00eddo, durante d\u00e9cadas, por uma participa\u00e7\u00e3o predominantemente masculina.\u00a0Como um coletivo de artistas jovens, com trajet\u00f3rias universit\u00e1rias e pr\u00e1ticas de ativismo em direitos LGBTQIAPN+, cultura perif\u00e9rica e produ\u00e7\u00e3o cultural independente, a crew se apresenta como resposta a uma aus\u00eancia hist\u00f3rica: a sub-representa\u00e7\u00e3o de corpos dissidentes em uma cena ainda marcada por din\u00e2micas masculinizadas, hierarquias impl\u00edcitas e mecanismos seletivos de reconhecimento.<br \/>\nUma das lideran\u00e7as \u00e9 Ayan Beatrix Pereira Gomes, psic\u00f3logue, pessoa trans n\u00e3o bin\u00e1rie, bissexual e pesquisadorie em g\u00eanero e sexualidade, vinculado ao campo da antropologia urbana.<br \/>\nComo relata Ayan Beatrix, \u201ceu comecei a me juntar com outras mulheres e outras pessoas LGBTQIAPN+ da cena, para a gente poder pintar [\u2026] e por meio dessa rede [\u2026] a Bixaria nasceu\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o evidencia, por\u00e9m, que a crew n\u00e3o nasceu de um projeto formal previamente estruturado, mas de uma necessidade concreta de reorganiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOutras presen\u00e7as ativas do coletivo s\u00e3o a arte-educadora Clara Soares, conhecida como Potiza, cuja produ\u00e7\u00e3o evidencia rigor t\u00e9cnico e consolida\u00e7\u00e3o est\u00e9tica; Jujuba, uma das mentes por tr\u00e1s da Batalha das Marias, que articula arte urbana, cultura popular e pr\u00e1ticas de cuidado; Yago Feitosa, profissional de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, grafiteiro que atua no graffiti com a tem\u00e1tica do afrofuturismo, convidado a participar do coletivo.<br \/>\nO coletivo tamb\u00e9m tem colaboradoras com perfis mais acad\u00eamicas, como \u00cdsis Sabino, Lux Ferreira Lima e Silvana Nascimento, cujas contribui\u00e7\u00f5es permitem compreender essas pr\u00e1ticas para al\u00e9m do campo art\u00edstico, situando-as como formas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, de reconfigura\u00e7\u00e3o do sens\u00edvel e de disputa pelos modos de exist\u00eancia na cidade.<br \/>\nA forma\u00e7\u00e3o do coletivo, portanto, n\u00e3o respondeu apenas \u00e0 afinidade est\u00e9tica, mas \u00e0 necessidade de construir redes de apoio, confian\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua, considerando que a predomin\u00e2ncia masculina na cena do graffiti e hip hop, pode impor barreiras simb\u00f3licas e materiais \u00e0 inser\u00e7\u00e3o plena de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ .<br \/>\nO repert\u00f3rio visual da Bixaria tamb\u00e9m incorpora uma dimens\u00e3o pol\u00edtica ao inscrever no espa\u00e7o urbano figuras que tensionam normatividades de g\u00eanero e representa\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 uma forma de me colocar ali dentro do muro [\u2026] de mostrar essas figuras que s\u00e3o transg\u00eaneros e que t\u00e3o tamb\u00e9m transitando [\u2026] pela cidade\u201d, diz Ayan.\u00a0 Ao afirmar que \u201co graffiti [\u2026] ainda \u00e9 um movimento extremamente machista e mis\u00f3gino\u201d, Ayan Beatrix explicita que a emerg\u00eancia da Bixaria n\u00e3o se d\u00e1 em um campo neutro, mas em um territ\u00f3rio atravessado por exclus\u00f5es e disputas. A crew, portanto, n\u00e3o apenas ocupa espa\u00e7os j\u00e1 existentes, mas contribui para reconfigur\u00e1-los, tensionando as formas de acesso, perman\u00eancia e reconhecimento no interior da cultura de rua.<br \/>\nDeslocando a perspectiva para o campo da biorresist\u00eancia, o graffiti e o pixo deixam de ser compreendidos como pr\u00e1ticas marginais para serem reconhecidos como formas de produ\u00e7\u00e3o de vida. Ao inscrever frases como \u201cSalve as Bixas!\u201d ou ao produzir personagens dissidentes nos muros da cidade, essas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas ocupam o espa\u00e7o: elas o reconfiguram. Como sugere Ayan, trata-se de uma juventude que \u201crecria, disputa, ocupa, transforma a cidade\u201d a partir de suas pr\u00f3prias experi\u00eancias e urg\u00eancias (GOMES, 2024).<br \/>\nEssa dimens\u00e3o torna-se ainda mais aguda quando articulada \u00e0 l\u00f3gica necropol\u00edtica que atravessa a cidade contempor\u00e2nea. Se o espa\u00e7o urbano \u00e9 tamb\u00e9m um dispositivo de gest\u00e3o da vida e da morte, determinados corpos s\u00e3o sistematicamente empurrados para zonas de precariedade extrema, nas quais a viol\u00eancia se naturaliza.<br \/>\nMais que graffitis, s\u00e3o gestos pol\u00edticos que mobilizam a mem\u00f3ria como pr\u00e1tica ativa, capaz de interromper os processos de apagamento que atravessam corpos dissidentes. Essa opera\u00e7\u00e3o adquire maior densidade quando articulada \u00e0 l\u00f3gica necropol\u00edtica que estrutura a cidade contempor\u00e2nea. Se determinados corpos s\u00e3o historicamente expostos a regimes de morte \u2014 simb\u00f3lica e material \u2014, o pixo-den\u00fancia desloca o olhar da viol\u00eancia estrutural, associada ao esquecimento e uma pol\u00edtica de invisibilidade, para o campo da resist\u00eancia.<br \/>\nAs pr\u00e1ticas da Bixaria evidenciam que a biorresist\u00eancia n\u00e3o se limita \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de imagens ou \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico, mas se estende \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria como forma de perman\u00eancia. E \u00e9 precisamente nesse ponto que o coletivo adquire sua densidade pol\u00edtica mais radical. Se o gesto individual pode ser compreendido como t\u00e1tica, no sentido de um contra-uso do espa\u00e7o regulado, o coletivo transforma essa t\u00e1tica em perman\u00eancia. A Bixaria n\u00e3o apenas subverte os usos previstos da cidade, mas produz outros modos de habit\u00e1-la, instaurando espa\u00e7os de reconhecimento onde antes havia apenas circula\u00e7\u00e3o hostil. Mais do que ocupar, trata-se de sustentar a ocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNesse enquadramento, coletivos como a Bixaria n\u00e3o podem ser lidos apenas como agrupamentos identit\u00e1rios ou art\u00edsticos, mas como verdadeiras infraestruturas de exist\u00eancia. Eles articulam prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica, elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e produ\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, permitindo que sujeitos historicamente marginalizados n\u00e3o apenas apare\u00e7am, mas permane\u00e7am.<br \/>\nSe, como afirma Ayan, \u201ca cidade tamb\u00e9m s\u00e3o as bixas\u201d, isso n\u00e3o se d\u00e1 por concess\u00e3o, mas por disputa. O muro, ent\u00e3o, deixa de ser superf\u00edcie neutra e passa a operar como campo de batalha: lugar onde se inscrevem mem\u00f3rias, denunciam-se viol\u00eancias e, sobretudo, afirmam-se vidas que insistem em existir.<br \/>\nH\u00e1, nisso tudo, uma dimens\u00e3o epistemol\u00f3gica, uma vez que a arte feita a partir da dissid\u00eancia produz um deslocamento no repert\u00f3rio visual e narrativo da cidade. A presen\u00e7a de personagens femininas, negras, e corpos dissidentes n\u00e3o \u00e9 apenas representacional, mas performativa: inscreve novas possibilidades de exist\u00eancia humana no espa\u00e7o urbano. A atua\u00e7\u00e3o conjunta fortalece a confian\u00e7a e encoraja a perman\u00eancia dessas mulheres e LGBTQIAPN+ na cena, rompendo com a l\u00f3gica de invisibiliza\u00e7\u00e3o historicamente imposta. Ao enfatizar o graffiti e o pixo como pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o de cidade a partir da experi\u00eancia dissidente, a Bixaria Crew evidencia que essa produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 de forma individualizada, mas profundamente mediada por v\u00ednculos coletivos. Na pr\u00e1tica, o foco recai sobre o \u201cfazer-cidade\u201d, atravessado por uma dimens\u00e3o estrat\u00e9gica: n\u00e3o basta existir, \u00e9 preciso existir em rede, em condi\u00e7\u00f5es minimamente seguras.<br \/>\nNo primeiro rol\u00ea de graffiti realizado pelo coletivo ap\u00f3s a morte brutal da travesti Paloma Silva, em dezembro de 2023, no Centro de Teresina, a ideia de biorresist\u00eancia se tornou mais evidente nas a\u00e7\u00f5es do coletivo:<\/p>\n<blockquote><p>O primeiro momento com a Bixaria diz respeito a um dia no in\u00edcio de janeiro que nos propomos a pintar na zona leste, pr\u00f3ximo a casa de Pancs e depois fazer uma guacamole recheada de fofoca ap\u00f3s a pintura. A casa de Pancs foi o ponto de encontro. \u00c9ramos Quale, Potiza, Pancs, Muri, Lore e eu.<br \/>\nCada um levou o material que tinha dispon\u00edvel e descemos caminhando para o terreno abandonado que viria a ser ocupado com nossos personas e riscos. Ao chegar l\u00e1, avaliamos o local, retiramos um pouco do mato que cobria algumas telas, cada ume demarcou seu espa\u00e7o, misturamos as tintas e pigmentos, Potiza ligou a caixa de som e iniciamos os desenhos. Nesse dia tamb\u00e9m tivemos a companhia de uma amiga (mulher cis) de Lore que chegou pouco tempo depois do in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s terminar meu Bomb, vi que Potiza estava pixando outros espa\u00e7os no mesmo muro, peguei meu spray e acompanhei. Fizemos xarpis e duas frases: \u201cSalve as Bixas!\u201d, \u201cSalve as os es Trans\u201d. Quando terminei, ofereci o spray para Pancs e logo em seguida para Muri. A medida que cada ume ia terminando seu desenho, dava-se in\u00edcio aos pixos. Finalizamos os trabalhos e seguimos para casa a fim de fazer a Guacamole e conversar ainda mais (GOMES, 2024).<\/p><\/blockquote>\n<p>Observa-se, nessa perspectiva, que o coletivo n\u00e3o se configura como mero arranjo organizacional, mas como uma resposta pol\u00edtica concreta \u00e0 heteronormatividade, \u00e0 misoginia e ao ass\u00e9dio que atravessam tanto a cidade quanto a pr\u00f3pria cena do graffiti. Em outra frente, tamb\u00e9m opera na forma\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica junto a popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. Um exemplo disso ocorreu em 2025, quando a Bixaria se uniu ao coletivo Francisca Trindade, na regi\u00e3o da \u00c1gua Mineral, zona norte de Teresina, na produ\u00e7\u00e3o de um mural dedicado \u00e0 trajet\u00f3ria de Francisca Trindade, uma lideran\u00e7a negra, professora e pol\u00edtica brasileira filiada ao Partido dos Trabalhadores, falecida em 2003. Reafirmando o graffiti como ferramenta de produ\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria e disputa simb\u00f3lica, o mural se tornou um manifesto de resist\u00eancia e mem\u00f3ria.<br \/>\nNo hip hop, a inser\u00e7\u00e3o da Bixaria ocorre por meio de iniciativas como a Batalha das Marias (BDM), que tem funcionado como ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o social para jovens mulheres e crian\u00e7as da periferia. A BDM vem reconfigurando as din\u00e2micas do hip hop, historicamente marcadas por exclus\u00f5es de g\u00eanero. Nesses espa\u00e7os, o freestyle, o graffiti e o encontro coletivo operam de forma integrada, produzindo ambientes que articulam cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, forma\u00e7\u00e3o e pertencimento.<br \/>\nEm 2026, a atua\u00e7\u00e3o da Bixaria avan\u00e7ou ainda mais nessa proposta ao ocupar a Casa do Hip Hop com a realiza\u00e7\u00e3o de uma oficina de Baby Vogue, incorporando ao seu repert\u00f3rio as pr\u00e1ticas das culturas ballroom e das express\u00f5es corporais dissidentes. Ao propor uma atividade voltada \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de \u201cposes, linhas, musicalidade e express\u00e3o corporal\u201d, a crew deslocou sua atua\u00e7\u00e3o para o campo do corpo como linguagem, ampliando os limites do graffiti enquanto pr\u00e1tica estritamente visual. Nesse movimento, o coletivo passou a ser tamb\u00e9m espa\u00e7o de performance, no qual imagem, gesto e presen\u00e7a se entrela\u00e7am na constru\u00e7\u00e3o de novas formas de existir e se expressar no espa\u00e7o urbano.<\/p>\n"},"nome-projeto":[2],"class_list":["post-1549","crews","type-crews","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","nome-projeto-grafithe"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Bixaria Crew - Editora Lestu - Projeto Grafi-The<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Bixaria Crew \u00e9 o primeiro coletivo de arte urbana LGBTQIAPN+ do Piau\u00ed, atuando na ocupa\u00e7\u00e3o, ressignifica\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica do espa\u00e7o urbano em Teresina por meio do graffiti e da cultura hip-hop.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/lestu.com.br\/projetos\/grafithe\/crews\/bixaria-crew\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Bixaria Crew - 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