{"id":1554,"date":"2026-09-19T10:08:17","date_gmt":"2026-09-19T13:08:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lestu.com.br\/projetos\/grafithe\/?post_type=eventos-ev&#038;p=1554"},"modified":"2026-09-19T10:09:03","modified_gmt":"2026-09-19T13:09:03","slug":"cuia-circuito-urbano-de-intervencoes-artisticas-de-teresina","status":"publish","type":"eventos-ev","link":"https:\/\/lestu.com.br\/projetos\/grafithe\/eventos-ev\/cuia-circuito-urbano-de-intervencoes-artisticas-de-teresina\/","title":{"rendered":"Cuia &#8211; Circuito Urbano de Interven\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas de Teresina"},"featured_media":1555,"parent":0,"template":"","meta":{"perfil-eventos":"<p>Em 2021, o Circuito Urbano de Interven\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas de Teresina, o CUIA, foi lan\u00e7ado com a provoca\u00e7\u00e3o \u201cbora discutir a cidade?\u201d. Ao adotar inicialmente o Centro de Teresina como um de seus principais territ\u00f3rios de atua\u00e7\u00e3o, o projeto passou a articular debates, shows, espet\u00e1culos, instala\u00e7\u00f5es, exposi\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es visuais, entre elas murais e trabalhos relacionados ao graffiti. A escolha incidia sobre uma regi\u00e3o caracterizada pela intensa circula\u00e7\u00e3o durante o dia e por altera\u00e7\u00f5es significativas em seus usos ao longo dos diferentes hor\u00e1rios, colocando a pr\u00f3pria experi\u00eancia do espa\u00e7o urbano entre as quest\u00f5es mobilizadas pelo circuito.<\/p>\n<p>O nome \u201cCuia\u201d estabelecia uma conex\u00e3o simb\u00f3lica com o imagin\u00e1rio local ao remeter \u00e0 lenda do Cabe\u00e7a de Cuia, figura do folclore piauiense associada aos rios Parna\u00edba e Poti. A escolha mobilizava uma refer\u00eancia reconhec\u00edvel da cultura da cidade e a incorporava \u00e0 identidade do projeto. O CUIA estruturou-se como uma a\u00e7\u00e3o orientada por curadoria, realizada pela Associa\u00e7\u00e3o Amigos da Arte e da Cultura do Piau\u00ed (ASSAAC) e pela Saracura Produtora, por meio do Sistema de Incentivo Estadual \u00e0 Cultura (SIEC).<\/p>\n<p>Fundada em 2000, a Associa\u00e7\u00e3o Amigos da Arte e da Cultura do Piau\u00ed (ASSAAC) atua sob a lideran\u00e7a de Jone Clay Macedo, produtor cultural cuja trajet\u00f3ria em projetos relacionados \u00e0s artes c\u00eanicas e \u00e0 arte-educa\u00e7\u00e3o remonta a 1997. A execu\u00e7\u00e3o do circuito ficou a cargo da Saracura Produtora de Arte e Eventos, liderada por Ronne Wesley Lopes da Cruz, respons\u00e1vel pela concep\u00e7\u00e3o e operacionaliza\u00e7\u00e3o das atividades. Fundada em 2021, a produtora participou da estrutura\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do circuito, compondo, ao lado da ASSAAC, sua base organizacional.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia do CUIA ocorreu no contexto da pandemia de Covid-19, declarada em mar\u00e7o de 2020, per\u00edodo marcado por restri\u00e7\u00f5es \u00e0 circula\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de pessoas nos espa\u00e7os p\u00fablicos. As primeiras a\u00e7\u00f5es do projeto, realizadas a partir de 2021, coincidiram com a retomada gradual das atividades presenciais. Ainda que o circuito n\u00e3o tenha sido concebido como resposta direta \u00e0 crise sanit\u00e1ria, suas interven\u00e7\u00f5es ocorreram em um momento no qual a rela\u00e7\u00e3o entre presen\u00e7a, circula\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o p\u00fablico havia sido profundamente alterada. A ocupa\u00e7\u00e3o art\u00edstica de ruas, fachadas, muros e equipamentos urbanos adquiria, portanto, uma condi\u00e7\u00e3o particular naquele contexto.<\/p>\n<p>No campo espec\u00edfico do graffiti e do muralismo, o CUIA ampliou as condi\u00e7\u00f5es institucionais de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es de maior escala. Por meio de curadoria, financiamento e planejamento de produ\u00e7\u00e3o, artistas passaram a executar trabalhos em superf\u00edcies selecionadas e em di\u00e1logo com uma programa\u00e7\u00e3o cultural mais ampla. Embora n\u00e3o se configurasse como projeto exclusivamente dedicado ao graffiti, o circuito incorporou essa linguagem a um conjunto diversificado de pr\u00e1ticas de interven\u00e7\u00e3o urbana, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es entre produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, territ\u00f3rio, mem\u00f3ria e usos da cidade.<\/p>\n<p>Uma das primeiras interven\u00e7\u00f5es visuais do CUIA, em 2021, foi o painel 2037, de Carlos C\u00e9sar, realizado em lambe-lambe ao longo de aproximadamente 27 metros da Rua Sete de Setembro. A escala do trabalho permitiu que a colagem ultrapassasse a condi\u00e7\u00e3o de imagem isolada e assumisse uma organiza\u00e7\u00e3o narrativa. Diferentemente da pintura direta sobre o muro, o lambe-lambe opera pela aplica\u00e7\u00e3o e justaposi\u00e7\u00e3o de imagens impressas, procedimento que, nesse caso, aproximava a superf\u00edcie urbana da linguagem dos quadrinhos e dos processos de montagem.<\/p>\n<p>A obra articulava dois universos ficcionais desenvolvidos pelo pr\u00f3prio artista, Os Androides de Areia e A Sociedade do Atrav\u00e9s, reunindo personagens, s\u00edmbolos e situa\u00e7\u00f5es em uma composi\u00e7\u00e3o sequencial. O muro funcionava, assim, como superf\u00edcie de converg\u00eancia entre narrativa gr\u00e1fica, literatura e interven\u00e7\u00e3o urbana. Ao projetar sobre Teresina elementos de uma fic\u00e7\u00e3o situada no futuro, 2037 produzia uma sobreposi\u00e7\u00e3o entre refer\u00eancias reconhec\u00edveis da cidade e um territ\u00f3rio imaginado, fazendo da paisagem urbana mat\u00e9ria para uma narrativa que deslocava temporalidades e repert\u00f3rios.<\/p>\n<p>No entorno do Mercado Velho, as interven\u00e7\u00f5es de Lu Rebordosa introduziram outro conjunto de refer\u00eancias. Os murais Ydjara do Parna\u00edba e Pir\u00e1 kwery mobilizaram figuras humanas, animais, grafismos, \u00e1guas e elementos vegetais em composi\u00e7\u00f5es relacionadas, segundo a proposi\u00e7\u00e3o das obras, \u00e0s cosmologias ind\u00edgenas e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre natureza e territ\u00f3rio. Inseridos em uma \u00e1rea marcada historicamente pela circula\u00e7\u00e3o comercial e pela proximidade com o rio Parna\u00edba, os trabalhos estabeleciam uma rela\u00e7\u00e3o entre os repert\u00f3rios mobilizados pela artista e a pr\u00f3pria localiza\u00e7\u00e3o das pinturas.<\/p>\n<p>Em Ydjara do Parna\u00edba, uma figura feminina associada \u00e0s \u00e1guas ocupa posi\u00e7\u00e3o central, acompanhada por uma serpente e por um cesto com peixes. A composi\u00e7\u00e3o aproxima a presen\u00e7a humana de elementos aqu\u00e1ticos e animais, articulando-os em uma mesma superf\u00edcie. Em vez de atribuir \u00e0 obra uma representa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica das culturas ind\u00edgenas, interessa observar como esses signos s\u00e3o organizados para construir uma imagem na qual \u00e1gua, territ\u00f3rio e figura humana permanecem interdependentes. As cores intensas e os grafismos estruturam visualmente essa aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Pir\u00e1 kwery, os peixes assumem maior protagonismo e aparecem organizados pela repeti\u00e7\u00e3o e pelo ritmo das formas. A composi\u00e7\u00e3o acentua rela\u00e7\u00f5es entre movimento, alimento e ambiente aqu\u00e1tico, mantendo o rio como refer\u00eancia importante para a leitura do conjunto. Consideradas lado a lado, as duas interven\u00e7\u00f5es introduziram no circuito imagens relacionadas \u00e0s \u00e1guas e a repert\u00f3rios ind\u00edgenas em uma regi\u00e3o central cuja pr\u00f3pria hist\u00f3ria urbana est\u00e1 vinculada \u00e0 proximidade com o Parna\u00edba.<\/p>\n<p>Outro artista convidado a participar da primeira edi\u00e7\u00e3o do CUIA foi Hirlan Moura, com a interven\u00e7\u00e3o Quem me leva os meus fantasmas. A obra deslocou o registro visual para quest\u00f5es relacionadas \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 subjetividade. Figuras humanas, rostos marcados e sobreposi\u00e7\u00f5es crom\u00e1ticas organizam uma composi\u00e7\u00e3o em que os personagens parecem submetidos a estados de tens\u00e3o, introspec\u00e7\u00e3o ou deslocamento. Situado na Rua Desembargador Freitas, em uma \u00e1rea de circula\u00e7\u00e3o intensa, o mural introduzia imagens de car\u00e1ter introspectivo em meio ao movimento cotidiano do Centro.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre imagem e entorno \u00e9 importante para compreender a interven\u00e7\u00e3o. O trabalho n\u00e3o representa diretamente a paisagem onde foi instalado, mas introduz nela outra temporalidade de observa\u00e7\u00e3o. Os rostos e corpos demandam uma aproxima\u00e7\u00e3o visual distinta daquela imposta pelo tr\u00e2nsito e pelos deslocamentos r\u00e1pidos da \u00e1rea central. A obra estabelece, assim, uma fric\u00e7\u00e3o entre o tempo de observa\u00e7\u00e3o da imagem e o ritmo de circula\u00e7\u00e3o da rua.<\/p>\n<p>Em outro ponto do circuito, Balan\u00e7o Tropical, de Let\u00edcia Anguito, mobilizou elementos associados \u00e0 paisagem e ao imagin\u00e1rio piauiense. A rede, as carna\u00fabas, o sol e uma paleta de cores intensas comp\u00f5em uma cena relacionada ao descanso e \u00e0 experi\u00eancia de ambientes tropicais. Localizado na Rua Sete de Setembro, nas proximidades do Pal\u00e1cio de Karnak, o mural foi organizado de maneira a incorporar visualmente caracter\u00edsticas arquitet\u00f4nicas e espaciais de seu suporte.<\/p>\n<p>Nesse caso, a rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio n\u00e3o ocorre pela representa\u00e7\u00e3o direta de uma cena espec\u00edfica da rua, mas pela introdu\u00e7\u00e3o de elementos reconhec\u00edveis da paisagem regional em uma superf\u00edcie do Centro. A rede e as carna\u00fabas funcionam como refer\u00eancias visuais que aproximam cotidiano, clima e paisagem, inserindo no circuito uma representa\u00e7\u00e3o menos narrativa e mais sint\u00e9tica dessas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Ainda em 2021, Marcus Batista, o Maku, realizou Liberdade e Hist\u00f3ria esquecida, duas interven\u00e7\u00f5es cont\u00edguas no entorno da Igreja S\u00e3o Benedito, nas proximidades do Pal\u00e1cio de Karnak. Executadas em empenas de grande escala, as obras estabeleceram uma rela\u00e7\u00e3o direta com a hist\u00f3ria do local onde foram produzidas. Para o artista, sua import\u00e2ncia n\u00e3o estava prioritariamente nas dimens\u00f5es das pinturas, mas na pesquisa realizada sobre a constru\u00e7\u00e3o da igreja e sobre a participa\u00e7\u00e3o de pessoas negras nesse processo. Como afirmou Maku, \u201cpara mim esses murais s\u00e3o os mais importantes, n\u00e3o pelo tamanho, mas pela hist\u00f3ria mesmo, pela import\u00e2ncia hist\u00f3rica que tem esse painel\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa levou o artista \u00e0 trajet\u00f3ria de Sebasti\u00e3o Mendes, respons\u00e1vel pelo trabalho de entalhe das portas da Igreja S\u00e3o Benedito, e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de trabalhadores negros na constru\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio. Maku descreve esse processo de investiga\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cPesquisando, a gente descobriu bem a fundo toda a hist\u00f3ria, todo o contexto. E a\u00ed eu achei mais do que justo t\u00e1 homenageando, justamente, os escravos, a sociedade dos escravos que tinha e fizeram parte diretamente da constru\u00e7\u00e3o daquela igreja, n\u00e9? Onde se um negro que foi t\u00e3o respons\u00e1vel, n\u00e9, por entalhar, porque a verdade \u00e9 que se hoje a igreja de S\u00e3o Benedito, ela \u00e9 um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico tombado pelo IPHAN, \u00e9 por causa das portas entalhadas do Sebasti\u00e3o Mendes.\u201d<br \/>\n(Marcos Batista, Maku, em depoimento a Edson Rodrigues Cavalcante, 2025).<\/p>\n<p>O depoimento deve ser compreendido como a elabora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio artista sobre a pesquisa que orientou os murais. Ao deslocar para as empenas figuras e acontecimentos relacionados \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra na constru\u00e7\u00e3o daquele patrim\u00f4nio, Maku produziu uma narrativa visual que direcionava o olhar para sujeitos pouco representados nas formas mais convencionais de apresenta\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria urbana. A localiza\u00e7\u00e3o das pinturas, junto \u00e0 pr\u00f3pria igreja, refor\u00e7ava essa rela\u00e7\u00e3o entre imagem, edif\u00edcio e hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Outro aspecto ressaltado por Maku foi a aproxima\u00e7\u00e3o que estabeleceu entre diferentes momentos hist\u00f3ricos marcados por crises sanit\u00e1rias:<\/p>\n<p>\u201cDentro desse contexto, essa sociedade dos escravos tanto ajudou a financiar a constru\u00e7\u00e3o da igreja, quanto a levantar as paredes da igreja. E curiosamente \u00e9 quando a constru\u00e7\u00e3o da igreja aconteceu, foi tamb\u00e9m num per\u00edodo pand\u00eamico, n\u00e9? No caso, a gripe espanhola. Ent\u00e3o, muitas pessoas nesse processo morreram e a\u00ed a gente traz para a atualidade que a constru\u00e7\u00e3o desse painel tamb\u00e9m se deu dentro de um contexto de pandemia, pandemia.\u201d<br \/>\n(Marcos Batista, Maku, em depoimento a Edson Rodrigues Cavalcante, 2025).<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o temporal proposta pelo artista inseriu a produ\u00e7\u00e3o dos murais, realizada durante a pandemia de Covid-19, em uma reflex\u00e3o mais ampla sobre mem\u00f3ria e experi\u00eancia hist\u00f3rica. Independentemente das diferen\u00e7as entre os dois contextos, o procedimento evidencia como a pesquisa realizada para a interven\u00e7\u00e3o alterou a pr\u00f3pria compreens\u00e3o do artista sobre o territ\u00f3rio onde trabalhava. O muro deixou de funcionar apenas como suporte e passou a integrar uma leitura da hist\u00f3ria do lugar.<\/p>\n<p>Esse envolvimento levou Maku a ampliar a interven\u00e7\u00e3o. Segundo relata, depois da primeira empena, decidiu utilizar parte do pr\u00f3prio cach\u00ea para executar a segunda: \u201cQuando a gente vai fazer esse estudo de contexto hist\u00f3rico, a gente descobre tanta coisa [...] que eu tirei parte do meu cach\u00ea para poder executar a segunda empena\u201d. Em outro momento, afirma: \u201c\u00e9 inevit\u00e1vel a gente n\u00e3o se envolver, n\u00e9? E a\u00ed isso tudo me fez ter mais vontade de transpor, de expor na verdade essa hist\u00f3ria para a gente mesmo\u201d. Os dois murais mostram, nesse sentido, como a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica pode participar do processo de concep\u00e7\u00e3o da arte urbana e produzir outras formas de leitura de um patrim\u00f4nio j\u00e1 incorporado \u00e0 paisagem cotidiana.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2022, o mural Movementhe 2037, concebido por Carlos C\u00e9sar e executado por Marcus Batista, Maku, ocupou um muro de 32 metros na Rua Sete de Setembro, em frente \u00e0 Central dos Correios. A pintura substituiu o lambe-lambe 2037, estabelecendo uma continuidade entre as duas interven\u00e7\u00f5es e retomando refer\u00eancias ao universo ficcional de Os Androides de Areia. A passagem do papel colado para a pintura modificou a materialidade da obra, mas preservou sua rela\u00e7\u00e3o com a narrativa gr\u00e1fica e com a proje\u00e7\u00e3o de uma Teresina situada em um futuro ficcional.<\/p>\n<p>Os \u201candroides de areia\u201d aparecem em posi\u00e7\u00f5es de movimento, acompanhados por refer\u00eancias \u00e0 cultura pop e por signos reconhec\u00edveis da cidade, como a Ponte Estaiada, a antiga esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria e o Troca-Troca. A express\u00e3o \u201cT\u00e1 Calor\u201d acrescenta ao universo futurista uma refer\u00eancia imediatamente relacionada \u00e0 experi\u00eancia cotidiana de Teresina. Esses elementos aproximam fic\u00e7\u00e3o e territ\u00f3rio, permitindo que a cidade existente seja simultaneamente reconhecida e reorganizada dentro de uma narrativa imagin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Entre as interven\u00e7\u00f5es realizadas em 2022, Cardoso Not produziu um painel de aproximadamente 190 m\u00b2 no muro do CREA, na Rua Arlindo Nogueira. Estruturada como hist\u00f3ria em quadrinhos em escala urbana, a obra articulava graffiti, desenho sequencial e narrativa gr\u00e1fica. Em vez de uma composi\u00e7\u00e3o organizada em torno de uma \u00fanica imagem, o trabalho propunha uma leitura por etapas, aproximando o deslocamento f\u00edsico do observador ao longo do muro da progress\u00e3o narrativa caracter\u00edstica dos quadrinhos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria representada partia da pr\u00f3pria experi\u00eancia social do artista e acompanhava a trajet\u00f3ria de um jovem da periferia de Timon, cidade maranhense separada de Teresina pelo rio Parna\u00edba, que encontra na educa\u00e7\u00e3o uma possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o de sua trajet\u00f3ria. Ao transpor esse percurso para uma superf\u00edcie urbana de grande escala, Cardoso Not aproximou experi\u00eancia biogr\u00e1fica e narrativa visual, inserindo no espa\u00e7o p\u00fablico uma hist\u00f3ria constru\u00edda a partir das rela\u00e7\u00f5es entre periferia, educa\u00e7\u00e3o e mobilidade social.<\/p>\n<p>A obra incorporou ainda recursos de realidade aumentada, permitindo que partes da narrativa fossem acessadas por dispositivos m\u00f3veis. A tecnologia acrescentava uma camada digital \u00e0 pintura e deslocava a experi\u00eancia para al\u00e9m da observa\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie f\u00edsica. O procedimento ampliava as possibilidades de intera\u00e7\u00e3o entre mural, narrativa e p\u00fablico, aproximando linguagens gr\u00e1ficas, pintura urbana e recursos digitais.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre arte, hist\u00f3ria e territ\u00f3rio tamb\u00e9m estruturou a trilogia Teresina, cidade ribeirinha, concebida por Maku. Organizada em tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es realizadas em pontos distintos da cidade, a s\u00e9rie tomou os rios, a forma\u00e7\u00e3o urbana e as formas de trabalho como eixos para uma leitura visual de Teresina.<\/p>\n<p>A primeira obra, Na minha rua passa um rio, foi realizada em 2021 no elevado do metr\u00f4 da Avenida Miguel Rosa, nas proximidades da Codevasf. Os rios Parna\u00edba e Poti aparecem como refer\u00eancias para uma composi\u00e7\u00e3o centrada na figura do ribeirinho e em sua rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio. Com formas simplificadas e cores s\u00f3lidas, o mural relaciona presen\u00e7a humana e paisagem fluvial, recuperando uma dimens\u00e3o da cidade que nem sempre permanece vis\u00edvel nos espa\u00e7os produzidos pela expans\u00e3o urbana.<\/p>\n<p>Em julho de 2022, Maku realizou Conflu\u00eancias na fachada da Biblioteca Abdias Neves, na Pra\u00e7a da Bandeira. A segunda obra deslocou o foco para a forma\u00e7\u00e3o urbana de Teresina, reunindo refer\u00eancias como a Ponte Met\u00e1lica, a Igreja da Matriz e a Usina El\u00e9trica, al\u00e9m de uma figura feminina relacionada ao Polo Cer\u00e2mico do Poty Velho. A composi\u00e7\u00e3o reuniu diferentes tempos e espa\u00e7os em uma mesma superf\u00edcie, utilizando elementos arquitet\u00f4nicos e personagens para construir uma s\u00edntese visual da rela\u00e7\u00e3o entre cidade, rios e trabalho.<\/p>\n<p>O ciclo foi conclu\u00eddo em agosto de 2022 com A feira, executado na fachada do Sine, no bairro Dirceu Arcoverde. A terceira interven\u00e7\u00e3o direcionou o olhar para pr\u00e1ticas de subsist\u00eancia e para a economia popular, destacando feirantes e produtos comercializados cotidianamente, entre eles frutas e verduras. Com essa obra, a trilogia percorreu diferentes dimens\u00f5es da cidade, partindo da rela\u00e7\u00e3o com os rios, passando por refer\u00eancias de sua forma\u00e7\u00e3o urbana e chegando \u00e0s pr\u00e1ticas de trabalho que organizam parte de sua vida cotidiana.<\/p>\n<p>A segunda edi\u00e7\u00e3o do CUIA Teresina teve in\u00edcio em outubro de 2022 com a primeira etapa do Festival Arte Urbana Teresina, realizada no bairro Mafu\u00e1. A a\u00e7\u00e3o ampliou a presen\u00e7a territorial do circuito e aproximou as interven\u00e7\u00f5es de \u00e1reas cuja din\u00e2mica cotidiana estava diretamente relacionada aos temas representados nos murais. O mercado e suas imedia\u00e7\u00f5es tornaram-se, nesse momento, refer\u00eancias importantes para as obras produzidas.<\/p>\n<p>As mercadoras, de Leandro Alves, foi realizada na Rua Quintino Bocai\u00fava, nas proximidades do Mercado do Mafu\u00e1. A composi\u00e7\u00e3o retomou a figura de mulheres que comercializam produtos em feiras e espa\u00e7os p\u00fablicos, destacando o gesto de transportar mercadorias sobre a cabe\u00e7a. Inserida em um territ\u00f3rio marcado por atividades comerciais populares, a obra estabelecia uma rela\u00e7\u00e3o direta entre imagem e pr\u00e1ticas observ\u00e1veis no entorno.<\/p>\n<p>A representa\u00e7\u00e3o dessas trabalhadoras deslocava para a superf\u00edcie urbana personagens integrados \u00e0 din\u00e2mica econ\u00f4mica da cidade. O gesto corporal, as mercadorias e a presen\u00e7a feminina funcionavam como elementos de uma narrativa sobre trabalho e subsist\u00eancia, sem separar a representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do espa\u00e7o social onde o mural estava instalado.<\/p>\n<p>Nas proximidades do mesmo mercado, Mika realizou uma interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o titulada que articulava figura humana e elementos relacionados \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de alimentos. A composi\u00e7\u00e3o utilizava tons terrosos e formas simplificadas, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es com refer\u00eancias afro-brasileiras e com o cotidiano daquele territ\u00f3rio. A proximidade entre obra e mercado fazia com que os elementos representados encontrassem correspond\u00eancia nas atividades desenvolvidas diariamente no entorno.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Mafu\u00e1, Lu Rebordosa realizou Maria Amazonas, concebida como homenagem \u00e0s mulheres que participam historicamente da din\u00e2mica do mercado como trabalhadoras, m\u00e3es, filhas e av\u00f3s. A composi\u00e7\u00e3o incorporou uma refer\u00eancia \u00e0 Picol\u00e9 e Sorveteria Amazonas, empreendimento tradicional fundado em 1954, aproximando mem\u00f3ria comercial, experi\u00eancia cotidiana e presen\u00e7a feminina.<\/p>\n<p>Ao utilizar uma refer\u00eancia ligada a um estabelecimento conhecido da regi\u00e3o, a obra articulava mem\u00f3ria individual e reconhecimento coletivo. Elementos do com\u00e9rcio local deixavam de aparecer apenas como cen\u00e1rio e passavam a constituir a pr\u00f3pria mat\u00e9ria visual do mural, refor\u00e7ando a rela\u00e7\u00e3o entre a interven\u00e7\u00e3o e o territ\u00f3rio onde foi realizada.<\/p>\n<p>Outra interven\u00e7\u00e3o desse conjunto foi Feirantes, de Maku, executada na fachada do Mercado do Mafu\u00e1. A obra voltou-se para trabalhadores e pr\u00e1ticas comerciais que estruturam a rotina do equipamento. A escolha do pr\u00f3prio mercado como suporte aproximava representa\u00e7\u00e3o e atividade social: as figuras pintadas remetiam aos sujeitos que diariamente ocupavam aquele espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Em 2022, no contexto do Festival Arte Urbana Teresina vinculado ao CUIA, as interven\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m avan\u00e7aram para a zona norte, alcan\u00e7ando o bairro Matinha. Ali, M\u00f4nica Barbosa realizou Entre rios e paisagens da mem\u00f3ria na fachada lateral do Centro de Forma\u00e7\u00e3o Antonino Freire. O mural, executado em grande escala, marcou uma mudan\u00e7a de dimens\u00e3o na trajet\u00f3ria da artista, que desde 2019 mant\u00e9m ateli\u00ea em S\u00e3o Paulo. Sua produ\u00e7\u00e3o articula experi\u00eancias autobiogr\u00e1ficas, mem\u00f3ria, deslocamentos e rela\u00e7\u00f5es com o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Realizada ao longo de cinco dias e com participa\u00e7\u00e3o de uma equipe de assist\u00eancia, a interven\u00e7\u00e3o articulou figuras humanas, elementos naturais e refer\u00eancias relacionadas \u00e0s mem\u00f3rias da artista. A escolha do local incidia sobre essa constru\u00e7\u00e3o, uma vez que a regi\u00e3o mantinha v\u00ednculos com sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. A escala monumental n\u00e3o eliminou essa dimens\u00e3o autobiogr\u00e1fica; ao contr\u00e1rio, ampliou para uma superf\u00edcie p\u00fablica imagens produzidas a partir de experi\u00eancias pessoais.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria artista relacionou a obra ao retorno \u00e0s paisagens vividas:<\/p>\n<p>\u201cDo tempo que tudo era mais simples e com cheiro de terra. Adentramos em nosso relic\u00e1rio de mem\u00f3rias, escondido em nossas paisagens quase esquecidas pelo tempo. Desenho um portal de encontro com meus rios geracionais e me pego sonhando um dia reviv\u00ea-las.\u201d<\/p>\n<p>A fala situa o mural como exerc\u00edcio de rememora\u00e7\u00e3o. Ao ser transposta para a fachada, entretanto, a mem\u00f3ria deixa de permanecer restrita \u00e0 experi\u00eancia individual e passa a compartilhar o espa\u00e7o com as mem\u00f3rias e os usos cotidianos de outros sujeitos. \u00c9 nesse deslocamento entre lembran\u00e7a pessoal e superf\u00edcie p\u00fablica que Entre rios e paisagens da mem\u00f3ria estabelece sua rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em 2023, no Parque da Cidadania, T\u00e1ssia Ara\u00fajo realizou Escafandro, s\u00e9rie fotogr\u00e1fica em lambe-lambe que levou para o espa\u00e7o urbano procedimentos relacionados \u00e0 fotografia, ao audiovisual e ao trabalho com arquivos. Concebida durante a pandemia de Covid-19, em 2020, a s\u00e9rie partiu de fotografias anal\u00f3gicas encontradas nos arquivos familiares da artista, posteriormente organizadas em montagem desenvolvida pela designer Aline Santiago.<\/p>\n<p>O registro da obra informa que, \u201cno \u00e1pice dessa crise social e humanit\u00e1ria, a artista destrava mem\u00f3rias afetivas de sua fam\u00edlia, atrav\u00e9s dos \u00e1lbuns de fotografias anal\u00f3gicas encontradas nas gavetas de sua m\u00e3e\u201d. Fotografias escolares, deslocamentos e cenas do cotidiano foram reorganizados e ampliados para a interven\u00e7\u00e3o, retirando imagens originalmente pertencentes ao espa\u00e7o dom\u00e9stico e inserindo-as na circula\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>A escolha do lambe-lambe refor\u00e7ava a rela\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria e temporalidade. As fotografias, preservadas durante d\u00e9cadas em \u00e1lbuns familiares, passaram a ocupar um suporte urbano sujeito ao desgaste e ao desaparecimento. Como registra o texto da obra, as imagens conduzem a \u201cum passeio visual e po\u00e9tico por uma Teresina que j\u00e1 n\u00e3o existe mais, a n\u00e3o ser na nossa mem\u00f3ria\u201d. A interven\u00e7\u00e3o trabalha, assim, com o contraste entre arquivo e efemeridade: imagens preservadas no ambiente familiar s\u00e3o temporariamente reinscritas na pr\u00f3pria cidade a que se referem.<\/p>\n<p>Ainda em 2023, no bairro Matadouro, a fachada da sede da Superintend\u00eancia de A\u00e7\u00f5es Administrativas Descentralizadas Norte (SAAD Norte), nas imedia\u00e7\u00f5es do Teatro do Boi, recebeu Guardi\u00e3o das \u00e1guas, de Aurora Viana e Noah Oliwer. Com 5,8 metros de altura por 19,8 metros de comprimento, o painel representou a primeira experi\u00eancia dos artistas em uma superf\u00edcie dessa dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra tomou como refer\u00eancia a lenda do Cabe\u00e7a de Cuia, mas reorganizou elementos de sua narrativa. Em lugar de concentrar a representa\u00e7\u00e3o em Crispim e na maldi\u00e7\u00e3o que o condena a permanecer nos rios, a composi\u00e7\u00e3o introduziu uma figura feminina relacionada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. A mudan\u00e7a deslocava o eixo narrativo da puni\u00e7\u00e3o para o cuidado, permitindo outra leitura de um repert\u00f3rio profundamente associado ao imagin\u00e1rio de Teresina.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o incorporou ainda refer\u00eancias \u00e0 pesca, ao trabalho artesanal, \u00e0 cer\u00e2mica e a outras pr\u00e1ticas relacionadas aos modos de vida da regi\u00e3o. Esses elementos aproximavam a releitura da lenda das experi\u00eancias sociais vinculadas aos rios e \u00e0s comunidades que historicamente estabeleceram rela\u00e7\u00f5es com eles. Instalado em um equipamento p\u00fablico da zona norte, o mural articulava imagin\u00e1rio popular, cultura material e territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 2023, Kikiko realizou Terra da Manga, no acesso \u00e0 Avenida Frei Serafim. Com 94,1 m\u00b2, a obra tomou como refer\u00eancia a cidade de Altos, onde o artista cresceu, e articulou lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia a elementos de sua paisagem de origem.<\/p>\n<p>P\u00e9s de manga e saguis organizam a composi\u00e7\u00e3o e remetem a experi\u00eancias recordadas pelo artista. Esses elementos n\u00e3o funcionam como reprodu\u00e7\u00e3o documental de uma paisagem espec\u00edfica, mas como signos de uma mem\u00f3ria constru\u00edda a partir do lugar vivido. Ao desloc\u00e1-los para Teresina, Kikiko produziu uma aproxima\u00e7\u00e3o entre o territ\u00f3rio de origem e o espa\u00e7o onde a obra passou a circular.<\/p>\n<p>A linguagem visual do mural aproxima graffiti, desenho e ilustra\u00e7\u00e3o, \u00e1reas nas quais o artista desenvolve sua produ\u00e7\u00e3o. Cores intensas, personagens e formas simplificadas estruturam uma cena marcada pela conviv\u00eancia entre figuras e elementos naturais. Terra da Manga incorpora, desse modo, ao conjunto do CUIA uma narrativa autobiogr\u00e1fica na qual mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia e experimenta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica permanecem articuladas.<\/p>\n<p>Em abril de 2023, o Centro Multicultural Stouradas, no Centro de Teresina, sediou o evento Manh\u00e3 de Tinta, promovido pelo CUIA. O encontro reuniu artistas, assistentes e colaboradores que haviam participado de diferentes etapas do circuito. Durante mais de dez horas, 32 artistas realizaram interven\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o, transformando a atividade em uma experi\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o compartilhada e de encontro entre agentes da cena local.<\/p>\n<p>Em etapa posterior, a fachada do pr\u00f3prio Stouradas recebeu uma interven\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Por se tratar de uma edifica\u00e7\u00e3o protegida, a a\u00e7\u00e3o envolveu articula\u00e7\u00f5es e procedimentos de autoriza\u00e7\u00e3o relacionados \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio. Essa condi\u00e7\u00e3o introduziu outra dimens\u00e3o \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre arte urbana e cidade: intervir em uma superf\u00edcie historicamente protegida exigia negociar a presen\u00e7a da nova pintura com os crit\u00e9rios aplicados \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da arquitetura.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o da fachada mobilizou refer\u00eancias ao repert\u00f3rio gr\u00e1fico associado a Keith Haring, percept\u00edveis nas figuras esquem\u00e1ticas, nos contornos negros uniformes e no emprego de campos crom\u00e1ticos em magenta, amarelo e azul-ciano sobre fundo branco. Um friso de figuras humanas percorreu diferentes planos da fachada e da grade, produzindo continuidade entre partes distintas da edifica\u00e7\u00e3o. Os corpos aparecem pr\u00f3ximos, sobrepostos e em contato, organizando visualmente uma ideia de conviv\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p>Sobre o arco da entrada, a presen\u00e7a de uma figura alada associada a um arco-\u00edris introduziu refer\u00eancias relacionadas \u00e0 cultura LGBTQIAP+. A escolha dialogava diretamente com a trajet\u00f3ria do Stouradas como espa\u00e7o de sociabilidade, produ\u00e7\u00e3o cultural e presen\u00e7a LGBTQIAP+ em Teresina. Nesse caso, a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas utilizava a fachada como suporte, mas relacionava sua iconografia \u00e0 hist\u00f3ria social do pr\u00f3prio lugar.<\/p>\n<p>Ao longo de suas diferentes etapas, o CUIA constituiu um campo de experimenta\u00e7\u00e3o das possibilidades de interven\u00e7\u00e3o art\u00edstica em Teresina. Do Centro aos bairros posteriormente incorporados ao circuito, as obras estabeleceram rela\u00e7\u00f5es com os rios, os mercados, o trabalho popular, a ancestralidade, a mem\u00f3ria negra, as culturas ind\u00edgenas, as experi\u00eancias LGBTQIAPN+, os arquivos familiares e outras refer\u00eancias do imagin\u00e1rio local. A diversidade tem\u00e1tica correspondeu tamb\u00e9m \u00e0 multiplicidade dos procedimentos empregados: graffiti, muralismo, lambe-lambe, fotografia, narrativa gr\u00e1fica, recursos digitais e interven\u00e7\u00f5es coletivas passaram a compartilhar o espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do CUIA registra, assim, uma inflex\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas na cidade. A curadoria, o financiamento, a defini\u00e7\u00e3o pr\u00e9via dos suportes, as equipes de produ\u00e7\u00e3o e as articula\u00e7\u00f5es com institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e equipamentos culturais introduziram formas espec\u00edficas de media\u00e7\u00e3o entre artistas e espa\u00e7o urbano. Isso n\u00e3o tornou homog\u00eaneas as obras nem suprimiu as diferen\u00e7as entre suas linguagens. Ao contr\u00e1rio, o conjunto permite observar como artistas mobilizaram essas condi\u00e7\u00f5es para produzir leituras distintas de Teresina, fazendo de suas superf\u00edcies lugares de inscri\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, experi\u00eancias sociais e pertencimentos que passam a compartilhar a paisagem da cidade.<\/p>\n","galeria_de_fotos-eventos":""},"nome-projeto":[2],"class_list":["post-1554","eventos-ev","type-eventos-ev","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","nome-projeto-grafithe"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Cuia - Circuito Urbano de Interven\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas de Teresina - Editora Lestu - Projeto Grafi-The<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Circuito Urbano de Interven\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas de Teresina (CUIA) \u00e9 um projeto de arte urbana e cultural, criado em 2021, que se prop\u00f5e a revitalizar e ressignificar espa\u00e7os urbanos e centros culturais da cidade por meio de diversas linguagens art\u00edsticas.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/lestu.com.br\/projetos\/grafithe\/eventos-ev\/cuia-circuito-urbano-de-intervencoes-artisticas-de-teresina\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Cuia - 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