A Editora Lestu chega à 24ª edição do Salão do Livro do Piauí com cinco lançamentos que vão da crítica ao racismo no humor televisivo ao debate sobre a posse da terra. A Lestu participa da maior feira literária do estado, e uma das maiores do Nordeste, com obras nascidas, em boa parte, da pesquisa acadêmica.
Os lançamentos ocorrem do dia 6 a 12 de junho, no “Bate-Papo Literário”, no Espaço Rosa dos Ventos da Universidade Federal do Piauí, sempre com mediação de pesquisadores convidados. A ideia é reunir, sob o mesmo selo, ciências sociais, comunicação, psicologia, arte urbana e direito, em uma feira que atrai estudantes, professores e leitores comuns.
Numa cena dominada por grandes selos nacionais, a aposta de uma editora independente, do meio norte brasileiro, em obras densas e regionais é, por si, uma tomada de posição sobre o que merece ser lido.
Cinco obras, muitas frentes
Mussum e o Racismo Recreativo
📅 6 de junho · 🕓 16h · Espaço Rosa dos Ventos (UFPI) Autor: Edson Rodrigues Cavalcante · Mediação: Alisson Carvalho

Quando o Brasil ria com Mussum, do que exatamente estava rindo? É a pergunta que move este estudo de Edson Rodrigues Cavalcante, derivado de dissertação de mestrado, que examina a representação do personagem de “Os Trapalhões” nas décadas de 1970 e 1980 — período de redemocratização e intensa reorganização cultural. A obra desmonta o paradoxo entre a popularidade do humor trapalhão e a perpetuação de estereótipos raciais, lendo a comédia aparentemente inocente como mecanismo de poder que naturaliza hierarquias. Para isso, mobiliza o conceito de racismo recreativo, formulado pelo jurista Adilson Moreira, e o inconsciente colonial-capitalístico, de Suely Rolnik, para explicar como o racismo se inscreve no imaginário e até no riso. Mussum, com sua linguagem singular, a malandragem, o álcool, emerge como arquétipo colonial reciclado. A intuição tem genealogia: Fanon já advertia que o colonizado é fixado numa imagem antes de ser dominado. Lido assim, Mussum, enquanto personagem, é menos piada e mais sintoma de uma sociedade que naturalizou o racismo.
Governança da Terra — Volumes 1 e 2

📅 8 de junho · 🕞 15h30 · Espaço Rosa dos Ventos (UFPI) Organizadores: Rodrigo Ribeiro Costa Cavalcante, Rhubens Ewald Moura Ribeiro, Cássio de Sousa Borges, Eduarda e Silva da Cunha e Rannyere Mendes de Oliveira Marques · Mediação: Kelma Gallas
Poucos temas atravessam a história do Piauí com a força da posse da terra. Esta coletânea em dois volumes reúne os trabalhos apresentados no I Congresso Científico do Instituto de Terras do Piauí (CINTERPI), realizado em Teresina em dezembro de 2025, e organiza-se em torno da regularização fundiária como questão científica e política. O primeiro volume reúne 29 estudos sobre perspectivas gerenciais, tecnológicas, ambientais e sociais no semiárido e no cerrado piauienses; o segundo soma 25 trabalhos voltados às dimensões jurídicas, aos povos e comunidades tradicionais, ao setor produtivo e às engenharias aplicadas. Mais do que diagnóstico técnico, a obra trata a terra como fundamento histórico do desenvolvimento regional e o conhecimento científico como mediação entre Estado e sociedade. Há aqui um eco da lição de Josué de Castro: no Nordeste, geografia é sempre também geografia da desigualdade. Titular a terra, sugerem os autores, é reconhecer direitos e reduzir distâncias históricas.
Direito Imobiliário no Contexto Piauiense

📅 8 de junho · 🕕 18h · Espaço Rosa dos Ventos (UFPI) Organizadores: Sebastião Patrício Mendes da Costa e Bruno Costa Rocha · Mediação: Kelma Gallas
A lei se escreve no plural, mas se aplica no concreto de cada território. Sob essa premissa, esta coletânea reúne juristas e advogados piauienses para reler o Direito Imobiliário a partir da realidade regional. Os capítulos articulam teoria e prática local em torno de temas centrais e emergentes: regularização fundiária, conflitos possessórios, usucapião extrajudicial, a atuação do corretor de imóveis, a proteção de dados no mercado imobiliário e os reflexos do novo Código de Normas dos Serviços Notariais e de Registro do Estado do Piauí. A obra não se limita às novas exigências legais e tecnológicas da formalização de negócios: encara desafios históricos como a informalidade na ocupação do solo urbano e rural, a tradição latifundiária e os conflitos territoriais no litoral piauiense. O resultado é uma releitura crítica da legislação à luz das desigualdades regionais, um direito pensado de baixo para cima, atento a quem o solo costuma deixar de fora.
O Legado Niseano Para Todos

📅 9 de junho · 🕢 19h30 · Espaço Rosa dos Ventos (UFPI) Autores: Alice Gabriella Muniz, Lívia Leal Miranda e Alisson Dias Gomes
Diante daquilo que indigna, o que se pode fazer? A pergunta, que foi de Nise da Silveira, organiza este livro ilustrado que apresenta às novas gerações a médica que revolucionou a saúde mental no Brasil ao recusar práticas psiquiátricas violentas e defender o cuidado fundado na escuta, na arte e na dignidade. Assinada por três pesquisadores — Muniz e Miranda também responsáveis pelas ilustrações e pela concepção visual; Gomes na orientação —, a obra combina narrativa em primeira pessoa, infográficos, colagens e linha do tempo ilustrada. Percorre desde a formação de Nise na Faculdade de Medicina da Bahia, única mulher entre 157 homens, até sua prisão no Estado Novo e os ateliês que abriu no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, onde Fernando Diniz, Adelina Gomes e outros se revelaram artistas. O legado niseano é apresentado como precursor da Luta Antimanicomial e da Lei 10.216/2001. No fundo, ressoa Foucault: toda sociedade se define também por como trata sua diferença.
Graffiti em Teresina: Arte e Insurgência

📅 12 de junho · 🕞 15h30 · Espaço Rosa dos Ventos (UFPI) Autores: Ana Kelma Cunha Gallas, Edson Rodrigues Cavalcante e Kleber Gallas Filho
A cidade também se escreve nos muros. É essa escrita efêmera que Ana Kelma Cunha Gallas, Edson Rodrigues Cavalcante e Kleber Gallas Filho resolveram preservar nesta obra, resultado do projeto GRAFI-THE, contemplado pelo Edital PNAB nº 02/2024 com recursos da Política Nacional Aldir Blanc.
O livro reúne entrevistas, registros fotográficos, análises e depoimentos de artistas do graffiti, do pixo e da cultura hip-hop, constituindo um acervo documental sobre um movimento que, apesar de sua relevância, permaneceu à margem dos registros oficiais da memória local. Personagens, coletivos, técnicas e processos criativos revelam a potência da cena urbana de Teresina.
Mais do que catálogo de imagens, a publicação investiga a arte urbana como ocupação simbólica da cidade e exercício do direito à paisagem, reencontrando a lição de Henri Lefebvre sobre o direito à cidade: o espaço urbano se conquista, não se recebe. Ao registrar o que corria o risco de sumir, a obra constrói memória contemporânea para Teresina e o Piauí.
Obras abordam poder, inclusão e exclusão
Há um fio que costura obras tão distintas: todas tratam de poder e de quem fica à margem dele. Cavalcante mobiliza o conceito de racismo recreativo, formulado pelo jurista Adilson Moreira, para mostrar que o humor pode operar como tecnologia de dominação e recorre ao inconsciente colonial-capitalístico de Suely Rolnik para explicar como a hierarquia racial se inscreve até no riso. A intuição tem genealogia: já Frantz Fanon advertia que o colonizado é fixado numa imagem antes de ser dominado. Mussum, lido assim, é menos piada e mais sintoma.
O mesmo deslocamento crítico atravessa O Legado Niseano para Todos. Ao recuperar os ateliês que Nise da Silveira abriu no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II e os artistas que de lá emergiram, como Fernando Diniz e Adelina Gomes, o livro se inscreve na linhagem que vai da reforma psiquiátrica à Lei 10.216/2001. É a loucura reposicionada como questão de direitos, não de exclusão. Já Graffiti em Teresina: arte e insurgência devolve dignidade documental a uma arte feita para desaparecer. Ao tratar o muro como exercício do direito à paisagem, reencontra a lição de Henri Lefebvre sobre o direito à cidade: o espaço urbano se conquista, não se recebe. Não por acaso, o salão homenageia Paulo Machado, herdeiro da Geração Mimeógrafo, outra arte de margem que também recusou canais oficiais.
Da pesquisa para fora dos muros
Levar essas obras ao SaLiPi responde a um problema antigo: a pesquisa universitária costuma morrer no formato em que nasce, tese arquivada, artigo de circulação restrita. Ao publicar dissertações, anais de congresso e livros ilustrados sob um selo com DOI e distribuição aberta, a Lestu encurta a distância entre a academia e o leitor comum, justamente no evento que reúne mais de 200 mil pessoas e que, desde 2003, sustenta a cena literária do estado. A escolha temática — raça, terra, saúde mental, arte urbana — não é neutra: aposta que o conhecimento produzido no Piauí tem algo a dizer sobre o Piauí, e que esse algo merece sair dos muros da universidade.
Para saber mais, acesse as obras na livraria da editora: 👉 www.lestu.org